Uma gravação inédita, realizada a 30 de outubro de 1975, na Suécia, onde Pasolini se encontrava, a convite do Instituto Italiano de Estocolmo e do Svenska Filminstitutet, pouco antes de seu assassinato, foi publicada na edição de 16 de dezembro de 2011 pelo semanário italiano L’Espresso, em cujo site pode ser ouvida na íntegra, na Mediagallery, em quatro partes. Com problemas de comunicação, com falas em sueco, francês e italiano, a entrevista demora a começar - Pasolini só principia a falar, sem o menor entusiasmo, na segunda parte. A história é comentada em Ipsilone.
5 Out
UM CRIME ETERNAMENTE MAL RESOLVIDO
A reportagem Ombre sul Giallo – Pier Paolo Pasolini sapeva troppo (2005), realizada pelo programa Primo Piano, da Rai, faz um boa revisão das circunstâncias do assassinato de Pasolini. Franca Leosini comenta as razões que levaram Pelosi a mudar sua versão do crime trinta anos depois de confessar ter sido o único assassino de Pasolini: ele não teria matado o escritor, apenas assumido a culpa disso por estar aterrorizado pelas ameaças dos verdadeiros assassinos que ele não conhecia, e chegaram de repente no local do crime, imobilizando-o enquanto matavam o escritor. Não abrira antes a boca porque os assassinos ameaçavam matar seus pais, que agora estavam mortos, e os assassinos hoje se vivos estariam muito velhos.
O advogado Nino Marazzita vê a possibilidade de se reabrir o processo junto à Procuradoria de Roma diante dos novos depoimentos, mas alerta para o caráter mentiroso do reincidente Pelosi, que ele conhecia bem. Ele destaca o caráter político do crime: “Pasolini era a consciência crítica da Itália”. Em entrevista a Maria Mangari, realizada pouco antes de sua morte, Sergio Citti também contesta a nova confissão de Pelosi. Segundo Citti, Pelosi conhecia os assassinos, ou pelo menos um deles, chamado Sergio, pois frequentavam o mesmo bar. Pelosi teria servido de isca para atrair Pasolini para o Idroscalo de Ostia, participando nessa condição da conspiração dos mesmos fascistas que haviam então roubado as bobinas de Salò, e que vinham ameaçando o cineasta de morte.
Interessante também neste programa é a reportagem editada por Alberto Prizzi registrando a visita do jornalista Roberto Scardova ao Museu de Criminologia de Roma, onde se encontram preservados, dentro de uma grande caixa de papelão meio esfarrapada de número 3257-C, todos os objetos pertencentes ou não a Pasolini encontrados no local do crime: a tabuleta partida ao meio e os pedaços de pau com os quais ele foi espancado; carteiras com documentos e fotos pessais; os óculos escuros que ele sempre usava; a camisa que vestia naquela noite, e que ficou toda empapada de sangue – sangue agora ressecado, mas nem por isso menos perturbador (ao tocá-la, Scardova visivelmente se emociona); os livros que estava lendo; e um pullover verde, encontrado no carro, e que não pertencia nem a Pasolini nem a Pelosi…
30 Mai
PASOLINI E A MÚSICA
Sem formação musical, Pasolini manteve com a música uma relação poética, livre, mas intensa. Segundo Laura Betti, Pasolini “tinha temor à música, porque ela o possuía completamente. Ele a chamava freqüentemente de Sua Majestade”. O gosto musical de Pasolini era bastante eclético: de Rita Hayworth, homenageada em sua novela Amado mio, à música clássica, que sacraliza o subproletariado em Accattone, Mamma Roma e La ricotta; de Domenico Modugno, que canta os créditos iniciais de Uccellacci e uccellini, à música folclórica internacional, que irrompe em Il Vangelo secondo Matteo, Edipo re e Medea… Neste último filme, é genial o uso que Pasolini faz de um canto tradicional do Japão na cena em que os argonautas entoam a canção que Orfeu tira de sua lira: num paralelismo musical, ele remete os gregos que cantam ali em japonês a uma cena de seus filmes prediletos, Biruma no tategoto (A harpa da Birmânia, 1956), de Kon Ichikawa, onde os japoneses fazem uma pausa na batalha para cantar, enquanto o soldado-músico dedilha seu instrumento em plena selva, como Orfeu…
30 Mai
PASOLINIANA AUDIOVISUAL
- A futura memoria: Pier Paolo Pasolini (Itália, 1986, 115’, cor, doc). Direção: Ivo Barnabò Micheli. Documentário sobre a vida e a morte de Pier Paolo Pasolini.
- Bernardo Bertolucci: A cosa serve il cinema? (Itália, 2002, TV, 57’, cor e p&b, doc). Direção: Sandro Lai. Fotografia: Daniele Piccioni. Edição: Giuseppe Baldieri. Documentário sobre o cineasta Bernardo Bertolucci, com cenas de arquivo de Pier Paolo Pasolini.
- Callas assoluta (2007, cor, doc). Direção: Philippe Kohly. Documentário comemorativo dos 30 anos da morte de Maria Callas, com cenas de arquivo com Pier Paolo Pasolini.
- Erika Rabau: Puck of Berlin (Alemanha, 2008, 87’, cor e p&b, doc). Direção: Samson Vicent. Documentário com cenas de arquivo com Pier Paolo Pasolini.
- Io sono Anna Magnani (Itália, 1979, 105’, cor e p&b). Direção: Chris Vermorcken. Documentário sobre a atriz Anna Magnani, com cenas de arquivo de Pier Paolo Pasolini.
- Pasolini prossimo nostro (Itália, 2006, 58’, cor e p&b, doc). Direção: Giuseppe Bertolucci. Com Franco Merli, Pier Paolo Pasolini, equipe e elenco de Salò. No set de filmagem de Salò, Pasolini é seguido por um pequena equipe cinematográfica dirigida pelo jornalista Gideon Bachmann e concede uma longa entrevista, em que profere contundentes ataques à sociedade. O filme combina essas imagens em preto e branco com cenas coloridas das filmagens.
- Pier Paolo Pasolini e la ragione di un sogno (Itália, 2001, cor e p&b, doc). Direção: Laura Betti e Paolo Costella. Roteiro: Laura Betti e Pasquale Plastino. Produção: Jean-Pierre Bailly, Roberto Cicutto, Carlo Degli Esposti. Trilha original: Bruno Moretti. Fotografia: Fabio Cianchetti. Edição: Roberto Missiroli. Assistente de Direção: Antonio Cecchi. Som: Fabio Cerretti. Edição adicional: Paolo Petrucci. Documentário sobre Pier Paolo Pasolini com cenas de arquivo e entrevistas com Pasolini e com Francesca Archibugi, Bernardo Bertolucci, Mimmo Calopresti, Mario Cipriani, Franco Citti, Sergio Citti, Pappi Corsicato, Ninetto Davoli, Andrea De Sica, Virgilio Fantuzzi, Giacomo Marramao, Mario Martone, Soo Min Choul, Michela Noonan, Tullia Perotti, Enzo Siciliano, Paolo Volponi.
- Salò Documentary (Inglaterra / Itália / Canadá, 2001, cor, doc). Direção, Roteiro: Mark Kermode. Documentário sobre a realização de Salò, que lança luzes sobre os problemas enfrentados pelo cineasta durante a realização de seu último filme, que muitos consideravam o mais insuportavel da história do cinema. Embora não fosse ilegal, causava grande escândalo na época que os jovens que filmavam nus tivessem em torno de 16 anos.
- Wie de Waarheid Zegt Moet Dood / Whoever Says the Truth Shall Die (Holanda, 1981, , 60’, cor & p&b, doc, TV). Direção: Philo Bregstein. Produção: Verenigde Arbeiders Radio Amateurs Television (VARA). Documentário sobre a vida e a morte de Pier Paolo Pasolini, com depoimentos de Bernardo Bertolucci, Laura Betti, Maria Antonietta Macciocchi, Nino Marazzita, Alberto Moravia, e cenas de arquivo de Pier Paolo Pasolini. O filme traz algumas imagens chocantes do cadáver de Pasolini.
30 Mai
PASOLINIANA LITERÁRIA
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AA.VV. Pier Paolo Pasolini. Lignes, n◦18, Paris, out. 2005, Editor Léo Scheer.
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BIANCOFIORE, Angela (org.). Pier Paolo Pasolini: Pour une anthropologie poétique. Colloque international, Université Paul Valéry – Montpellier III, 8-9 mars 2002. Volume collectif, 167 p. ISBN: 978-2-84269-792-1. O volume retoma parte das comunicações apresentadas por ocasião do Colóquio Pasolini: pour une anthropologie poétique (Université de Montpellier III, mars 2002). Pasolini é estudado enquanto um “poeta antropólogo” que se revela cada vez mais atual num mundo em que as culturas, as línguas, os mundos desaparecem rapidamente, através dos fenômenos das migrações e da globalização. Ler Pasolini nessa perspectiva significa retornar ao seu engajamento sem esperança, ao seu niilismo ativo dos últimos anos.
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BIANCOFIORE, Angela. ‘Médée’ de Pier Paolo Pasolini: la vengeance du sacré. Este texto me foi enviado diretamente pela autora, sem outras referências.
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BIANCOFIORE, Angela. La naissance d’Athéna: mythe et histoire dans Pylade de Pasolini. Cahiers de l’IREC, 1/2006, Université Paul Valéry, Montpellier.
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BIANCOFIORE, Angela. Pasolini. Palermo: Edizioni Palumbo, 2003, 344p. A última parte do ensaio contém uma história da recepção da obra de Pasolini de 1943 a 2003 e apresenta uma antologia dos textos críticos mais significativos. ISBN: 88-8020-523-4.
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CALABRESE, Giuseppe Conti. La mania della verità. Dialogo con Pasolini. Bologna: Cappelli, 1978.
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CALABRETTO, Roberto Pasolini e la musica. Edizioni Cinemazero, 1999, 560p.
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DE GIUSTI, Luciano (org.). Il cinema in forma di poesia. Edizioni Cinemazero, 1979, 188p.
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DUFAUX, Jean; ROTUNDO, Massimo. Pasolini. Pig! Pig! Pig!. Paris: Glénat, 1993, 58p. Revista em quadrinhos em que Jean Dufaux e o desenhista romano Massimo Rotundo exploram momentos pouco conhecidos da vida de Pasolini e os laços invisíveis que unem a ficção à realidade. Vinte anos depois do assassinato de Pasolini, o policial decadente Antonio Scerba investiga os últimos dias do cineasta. Através das lembranças de protagonistas e testemunhas, os últimos encontros de Pasolini são revividos, até a descoberta de seu corpo na praia de Ostia. Uma espantosa galeria de personagens desfila neste mistério criminal até hoje não elucidado.
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FUSILLO, Massimo. La Grecia secondo Pasolini. Mito e cinema. Firenze: La Nuova Italia, 1996.
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JÚNIOR, Erly Vieira. Recortes e rasuras no corpo: sagrado e erotismo no ‘Teorema’ de Pier Paolo Pasolini. INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – BH/MG – 2 a 6 set 2003, 15p
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MEACCI, Giordano. Improvviso in Novecento: Pasolini professore. Apêndices de Massimiliano Malavasi e Francesca Serafini. Roma: Edizioni minimum fax, 1999, 408 p.
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MOREAU, Alain. Le mythe de Jason et Médée. Le va-nu-pied et la sorcière. Paris: Les belles lettres, 1994.
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PASOLINI, Pier Paolo. “La Guinea”. in: BARDOTTI, S.; BERNOBINI, P. La loro voce la loro opera. Roma: Edizioni Letterarie, maio 1962.
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PASOLINI, Pier Paolo. Bestemmia, tutte le poesie. Torino: Ed.Garzanti, 1993.
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PASOLINI, Pier Paolo. Entretiens avec Jean Duflot. Paris: Gutemberg, 2007.
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PASOLINI, Pier Paolo. Manifesto per un nuovo teatro [1968]. Teatro: Calderon, Affabulazione, Pilade, Orgia, Bestia da stile. Prefácio de G. Davico Bonino. Garzanti: Milano, 1988.
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PASOLINI, Pier Paolo. Médée. Tradução e apresentação de Christophe Mileschi. Paris: Arléa, 2002.
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PASOLINI, Pier Paolo. Poesia in forma di rosa. Milano: Garzanti, 1964
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SARAIVA, Arnado (org.). Páginas de estética contemporânea. Seleção, tradução, prefácio e notas de Arnaldo Saraiva. Lisboa: Editorial Presença, 1966, 236p.
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VITELLI, Armando; ARBASINO, Alberto; LEONETTI, Francesco; SANGUINETI, Edoardo; MORAVIA, Alberto; PASOLINI, Pier Paolo. Requiem pelo romance. Debate organizado pelo jornal italiano Paese Sera, 26 mar. 1965. In: SARAIVA, Arnado (org.). Páginas de estética contemporânea. Seleção, tradução, prefácio e notas de Arnaldo Saraiva. Lisboa: Editorial Presença, 1966. 236p.
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VINH, Graziella. La Grèce de Pasolini. Acta Fabula, v. 9, n. 1, 18 jan. 2008. URL: http://www.fabula.org/revue/document3796.php.
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ZIGAINA, Giuseppe. Pier Paolo Pasolini et la sacralité de la technique, Editions Kara, 1986, 258p.
29 Mai
FANTASIAS DE PASOLINI
Coordenação: Luiz Nazario
Arte final e autoração: Marcelo La CarrettaConteúdo
Nota de produção
O DVD Fantasias de Pasolini, produzido durante a escritura do livro Todos os corpos de Pasolini, de Luiz Nazario, da Editora Perspectiva, reúne todos os clipes sobre Pasolini realizados entre 2005 e 2007 por bolsistas e pesquisadores do Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais dentro do Projeto de Pesquisa Pier Paolo Pasolini: Vida e Obra, em convênio com a Università degli Studi di Bologna, através do Istituto Gramsci Emilia-Romagna e do Dipartimento di Italianistica. São quinze animações, colagens e montagens sobre poemas do escritor e cineasta italiano com fundos de fotografias dos lugares que ele freqüentava na sua Bolonha natal e de trechos de filmes de outros cineastas alusivos à sua vida e obra. Produzidas aos 30 anos da morte do poeta, com uma finalidade simultaneamente didática e artística, essas fantasias (numa referência à clássica animação de Walt Disney) constituíram a homenagem de uma escola brasileira de animação ao poeta assassinado em 1975, em circunstâncias até hoje não completamente esclarecidas.
1. PIER PAOLO PASOLINI POR PIER PAOLO PASOLINI (Brasil, 2005, DV, cor, 1’47’’). Gênero/Técnica: Animação. Criação: Alex Queiroz. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Fantasia audiovisual sobre imagens dos principais filmes de Pier Paolo Pasolini.
2. O PÓRTICO DA MORTE (Brasil, 2005, DV, p&b, 30’’). Gênero/Técnica: Live action com animação. Direção, Roteiro, Edição, Animação: Alex Queiroz de Souza. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Poema: “O pórtico da morte”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Elenco: Mariana Blanco. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Recitação de um poema de Pier Paolo Pasolini em clima de filme noir.
3. UMA SOLITÁRIA VOZ (Brasil, 2005, DV, cor, 2’20’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui e animação computadorizada. Direção: Eduardo Ferreira dos Santos. Orientação técnica: Marcelo La Carretta. Direção de Ator: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Voz Off: Pier Paolo Pasolini / La mia sola puerile voce / CD Ennio Morricone – Pasolini, um delitto italiano / Concessão: BMG ARIOLA S.P.A. Imagens: Mamma Roma (Mamma Roma, 1962); Edipo Re (Édipo Rei, 1967), de Pier Paolo Pasolini. Poema: Versos de “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Marília Sette Câmara. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Vinheta animada transpondo uma visão do ‘Terceiro Mundo’ a partir de versos do poema “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini.
4. SUPPLICA A MIA MADRE (Brasil, 2005, DV, p&b, 2’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de Ator: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Poema: “Supplica a mia madre”, de Pier Paolo Pasolini. Elenco: Veronica Bridi. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Leitura do poema “Supplica a mia madre”, de Pier Paolo Pasolini, com técnica mista de live action e cromaqui de imagens de manuscritos do poeta.
5. SÚPLICA À MINHA MÃE (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 2’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Edição: Nelson Barraza. Poema: “Supplica a mia madre”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Imagens: Biruma no tategoto (A harpa da Birmânia, 1956), de Kon Ichikawa; Medea (Medéia, 1969), de Pier Paolo Pasolini; fotos de Pasolini com a mãe, Susanna; pinturas de Pasolini. Tratamento de Imagem: Marco Anacleto. Elenco: Eleonora Mendes. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação integral do poema “Súplica à minha mãe”, de Pier Paolo Pasolini, sobre imagens de Kon Ichikawa e Pier Paolo Pasolini.
6. AMOR DE MÃE (Brasil, 2006, DV, cor, 1’33’’). Gênero/Técnica: Animação por rotoscopia. Direção, Roteiro, Animação: Isabelle Maluf. Voz: Eleonora Mendes. Poema: “Súplica à minha mãe”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Imagens: Mamma Roma (idem, 1962), de Pier Paolo Pasolini. Professores Orientadores: Antônio Fialho, Chico Marinho, Maurício Gino. Disciplinas: Animação A e B. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de versos do poema “Súplica à minha mãe”, de Pier Paolo Pasolini, com animação por rotoscopia.
7. PRECE DE ENCOMENDA (Brasil, 2005, DV, cor, 3’22’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Eduardo Ferreira. Orientação técnica: Marcelo La Carretta. Direção de Ator: Luiz Nazario. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Poema: “Prece de encomenda”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Elenco: Gustavo Schetini. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPQ. Sinopse: Leitura do poema “Prece de encomenda”, de Pier Paolo Pasolini, com técnica mista de live action e cromaqui de imagens em live action.
8. LO SCANDALO DEL CONTRADDIRMI: LE CENERI DI GRAMSCI (Brasil, 2005, DV, cor, 1’35’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poemas: “A G. L. Rondi”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Zemlya (Terra, 1930), de Aleksandr Dovzhenko. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de versos do poema “Le Ceneri di Gramsci”, de Pier Paolo Pasolini, sobre imagens de Aleksandr Dovzhenko.
9. A G. L. RONDI (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poemas: “A G. L. Rondi”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix; cena trucada de A paixão de Joana D’Arc, de Carl Dreyer. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de um epigrama de Pier Paolo Pasolini sobre imagens de desenhos de Eduardo Félix.
10. AL PRINCIPE BARBERINI (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’5’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poema: “Al principe Barberini”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de um epigrama de Pier Paolo Pasolini sobre desenhos de Eduardo Félix.
11. AI NOBILI DEL CIRCOLO DELLA CACCIA (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 40’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz. Direção de ator: Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poema: “Ai nobili del circolo della caccia”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix; Il Pollo ruspante (O frango caseiro), de Ugo Gregoretti, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (idem, 1963). Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Recitação de um epigrama de Pier Paolo Pasolini sobre desenhos de Eduardo Félix e imagens de Ugo Gregoretti.
12. LA GUINEA (Brasil, 2005-2007, DV, cor, 14’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Poema: “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini. Imagens: Powaqqatsi (Powaqqatsi, 1988), de Godfrey Reggio; Baraka (Baraka, 1992), de Ron Frick. Tradução: Marília Sette Câmara. Elenco: Carlo Varotti. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Apoio: CNPq. Sinopse: Recitação integral do poema “La Guinea”, de Pier Paolo Pasolini sobre imagens de Godfrey Reggio e Ron Frick.
13. IO SONO UMA FORZA DEL PASSATO (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’10’’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Criação: Alex Queiroz, Luiz Nazario. Edição: Nelson Barraza. Elenco: Carlo Varotti. Poema: “Io sono una forza del passato”, de Pier Paolo Pasolini. Imagens: Desenhos de Eduardo Felix; La Ricotta (A ricota), de Pier Paolo Pasolini, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (Ro.Go.Pa.G., 1963). Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Carlo Varotti recita o poema “Io sono una forza del passato”, de Pier Paolo Pasolini, sobre desenhos de Eduardo Felix e imagens de Pier Paolo Pasolini.
14. EU SOU UMA FORÇA DO PASSADO (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 1’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção, roteiro: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Edição: Nelson Barraza. Imagens: Cenas do episódio La Ricotta (A ricota), de Pier Paolo Pasolini, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (Ro.Go.Pa.G., 1963). Tratamento de imagens: Marco Anacleto. Elenco: Guará Rodrigues, Eleonora Mendes. Poema: “Eu sou uma força do passado”, de Pier Paolo Pasolini. Tradução: Luiz Nazario, Marília Sette Câmara. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Apoio: CNPq. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Guará revive Orson Welles recitando o poema “Eu sou uma força do passado” sobre imagens de Pier Paolo Pasolini.
15. AZZURRO (Brasil, 2005-2007, Betacam, cor, 4’). Gênero/Técnica: Live action com cromaqui. Direção, roteiro: Luiz Nazario. Assistente de Produção: Hudson Carvalho. Assistente de Direção: Leonardo Faria. Câmara, Luz, Som: Luiz Carlos Carneiro. Edição: Juan Celín, Nelson Barraza. Música: “Azzurro” (1960), de Adriano Celentano. Imagens: La Ricotta (A ricota), de Pier Paolo Pasolini, do filme coletivo Ro.Go.Pa.G. (Ro.Go.Pa.G., 1963); fotos dos “lugares de Pasolini” em Bolonha e de Gianni Scalia, por Luiz Nazario. Tratamento de imagens: Marco Anacleto. Elenco: Guará Rodrigues, Eleonora Mendes. Produção: Ophicina Digital do FTC-EBA-UFMG. Apoio: CNPq. Chefe do Departamento: Antonio Hildebrando. Sinopse: Um casal de turistas passeia sobre imagens de Pier Paolo Pasolini; pelos lugares que ele freqüentava em Bolonha; e pela biblioteca do amigo Gianni Scalia.
28 Mai
O LEGADO DE PASOLINI
LUIZ NAZARIO responde ao jornalista João Barile, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, em 2007
Em entrevista recente, você assinalou a importância do Cine Bijou na sua formação. E afirmou: “O cinema dos anos de 1960-1970 tinha uma qualidade humana, política e perversa que nos fazia respirar mesmo sob a ditadura e que desapareceu com a cada vez mais dominante cultura de massas produzida sob o terror da AIDS. Ver todos esses filmes maravilhosos na adolescência fez de mim um apaixonado pelo cinema complexo, elitista e libertário, de que Pasolini era um dos principais representantes”. Como acredita que Pasolini reagiria ao tipo de cinema que é feito hoje?
Creio que Pasolini consideraria a maior parte da produção atual como lixo industrial. No período silencioso, ir ao cinema era como ir a um templo sagrado; nos anos de 1930-1950, vivia-se o esplendor do cinema americano (o cinema europeu sofrerá com a propaganda nazi-fascista e a guerra, ressurgindo com o neo-realismo); e nos anos de 1960-1970, com a explosão do cinema autoral em todo o mundo, ir ao cinema significava descobrir um novo universo a cada noite. E tínhamos de escolher num cardápio que incluía os últimos grandes filmes de Bergman, Blasetti, Bolognini, Buñuel, Cavalcanti, Cayatte, Clément, Clouzot, De Seta, De Sica, Hitchcock, Kinoshita, Kinugasa, Kurosawa, Lattuada, Losey, Mizoguchi, Monicelli, Naruse, Ozu, Resnais, Rossellini, Visconti, Wajda, Welles, Wyler, etc.; e os primeiros sucessos de Allen, Altman, Antonioni, Borowczyk, Cacoyannis, Coppola, Cronenberg, Delvaux, Fassbinder, Fellini, Forman, Glauber, Godard, Herzog, Honda, Jancsó, Kümel, Lumet, Lynch, Munk, Oshima, Parajanov, Pasolini, Penn, Petri, Polanski, Pollack, Risi, Rivette, Rosi, Russell, Schlesinger, Schlöndorff, Schroeter, Schmid, Scorsese, Shindo, Skolimowski, Spielberg, Syberberg, Tarkovski, Tati, Truffaut, Wenders, Zanussi, Zurlini, etc. Era muito difícil elaborar a lista dos dez melhores filmes do ano. Hoje também é difícil, mas não pelo excesso, e sim pela falta de grandes filmes. O pior é que nem todos os veteranos remanescentes mantiveram a qualidade: o último filme de Resnais, Medos privados em lugares públicos, por exemplo, é uma bobagem: em plena era da pornografia digital (via cabo, Internet, DVD), os personagens escandalizam-se com strip-teases caseiros gravados em VHS! Atualmente, raros são os autores com idéias novas sobre o mundo, a vida, os homens e a sociedade, ou com idéias novas em cinema. Eu citaria Lars von Trier, Thomas Vinterberg, Aleksandr Sokúrov, Amos Gitai, Pedro Almodóvar, Ang Lee, Yimou Zhang, entre os poucos. O cinema industrial americano encontra-se paralisado pelo sucesso das séries e infantilizado pelas demandas do novo público adolescente que lota as salas. Analisei este problema no ensaio “Pós-modernismo e cinema”, publicado na coletânea O Pós-modernismo, organizada por J. Guinsburg e Ana Mae Barbosa. Os cineastas europeus tentam opor-se aos blockbusters de Hollywood; mas realizam outro “cinema comercial” utilizando os mesmos esquemas dentro de um quadro de pensamento mórbido, neurótico, que torna seus filmes aborrecidos, pretensiosos. Susan Sontag escreveu um pequeno ensaio definitivo sobre o fim da cinefilia e, portanto, do cinema: “Um século de cinema”, incluído no livro Questão de ênfase. É um texto que eu poderia ter escrito, pois penso exatamente como ela. É o que justifica a refilmagem digital de O gabinete do Dr. Caligari por David Lee Fisher, e o retorno à estética do cinema mudo nos intrigantes filmes de E. Elias Merhige e Guy Maddin. Parece-me que o melhor cinema americano hoje é feito nos seriados de TV, como em 24 horas, por exemplo, que ousa abordar o apocalíptico terror moderno e o uso da tortura nas agências que combatem esse terror; a loucura do fanatismo contra o poder americano, e a loucura do próprio poder americano. Outros seriados, como Oz, A sete palmos, L World, etc. abordam a homossexualidade de modo mais aberto e realista que nos filmes de Hollywood, embora O segredo de Brokeback Mountain tenha sido um marco neste sentido. Penso que Pasolini veria este filme com bons olhos, criticando, de resto, as produções correntes do chamado “cinema gay”, dirigida ao gueto homossexual. Pasolini era avesso à mentalidade de gueto. Associava sua homossexualidade a uma visão de mundo revolucionária: seu cinema fugia, assim, à estética realista. A homossexualidade está presente em seus filmes, mas nunca sob a forma de um casal homossexual. Pasolini odiava a forma de vida representada pelo casal burguês, fosse ele heterossexual ou homossexual.
A obra completa de Pasolini só começou a ser organizada, e publicada, recentemente. O que acredita que está mal dimensionado na obra de Pasolini (e aí penso em tudo: poesia, crônica, romance) e que mereceria maior atenção?
Na Itália, muito já se escreveu e se publicou sobre Pasolini. Essa vasta fortuna crítica é desconhecida no Brasil. Aqui, nem a obra literária de Pasolini é bem conhecida, com exceção de O sonho de uma coisa, Teorema, Meninos da vida e Amado meu, e recentemente, da coletânea Ali dos olhos azuis. Seria preciso publicar uma coletânea dos melhores poemas de Pasolini e Uma vida violenta, a meu ver o romance mais realizado de Pasolini. A ensaística pasoliniana é de uma densidade impressionante. Dentro dela, eu destacaria Paixão e ideologia, Descrições de descrições, O empirismo herético, Os diálogos, Escritos corsários, Cartas luteranas – alguns ensaios desses livros foram publicados no Brasil em três coletâneas mistas: Diálogos com Pasolini, O caos e Os jovens infelizes, sem respeitar o formato das edições originais. Penso que Petrolio, apesar de seu caráter inacabado, é um romance que merecia ser traduzido e publicado aqui, por levar as experiências da literatura homossexual de Jean Genet aos limites da pornografia, inaugurando uma pornografia artística, que chegará ao cinema com O império dos sentidos (1976), de Nagisa Oshima, em versão heterossexual. A versão homossexual dessa pornografia artística só chega ao cinema comercial, parece-me, com O fantasma (2000), de João Pedro Rodrigues, um filme português que surpreende pela ousadia. Mas como a pornografia artística heterossexual já estava bem difundida, em filmes como Romance, Os idiotas, etc. aquela outra pornografia não causou tanta polêmica. Certamente, se não tivesse sido assassinado, Pasolini teria sido o primeiro a realizar um filme assim, confrontando em sua época o preconceituoso filme de Oshima. Oriento atualmente uma tese de doutorado, de José Rodrigo Gerace, sobre o tema. Ele está mapeando, desde sua gênese até hoje, a pornografia artística no cinema.
Pretende publicar o livro no exterior?
Claro que gostaria que o livro fosse traduzido, sobretudo para o italiano, e publicado na Itália. E também para o inglês, para o mercado americano e, consequentemente, mundial. Mas isso não depende de mim. Tenho dois contos inéditos no Brasil publicados no site Griselda, da Universidade de Bolonha: Le piazze della pazzia e Quanto costa?, traduzidos pelo mineiro José Pessoa. E um capítulo no livro coletivo Cinema and the Swastika, editado por Roel Vande Winkel e David Welch, pela Palgrave Macmillan. Winkel, professor da Universidade de Gent, é especialista em documentários nazistas; e Welch escreveu um estudo pioneiro sobre a propaganda nazista no cinema, um livro que me guiou na tese de doutorado que desenvolvi na Alemanha. Meu capítulo é um estudo que acredito pioneiro sobre a influência do cinema nazista no Brasil.
Pasolini demonstrava grande preocupação com os rumos que a Itália estava tomando (penso aí no enriquecimento que o país experimentaria: e olha que ele nem viveu os anos 80 que foram os anos onde o país mudou radicalmente). Gostaria que o senhor falasse um pouco disto.
Pasolini havia se radicalizado nos anos de 1970 ao perceber que os jovens do subproletariado que ele tanto amava haviam se convertido em delinqüentes, capazes de tudo para atingir o status de burguês vendido nos anúncios publicitários e na televisão como condição necessária para alguém se tornar “ser humano”. A publicidade e a TV convertiam os jovens burgueses em subproletários mentais enquanto transformava os jovens do subproletariado em burgueses imaginários. Como o jovem burguês imaginário estava (e está) sempre aquém do jovem burguês real (vestindo um jeans da moda, mas de marca inferior; uma camiseta fashion, mas sem griffe, etc.); e como a quantidade de dinheiro acumulada torna-se a única diferença entre as classes, niveladas pela destruição tanto da cultura superior quanto da cultura popular, a solução encontrada pelos subproletários na nova sociedade regida pela cultura de massa era delinqüir. Nascia assim um crime sem limites, uma violência generalizada. O fenômeno que Pasolini chamou de violência de massa é mundial, e em poucos países ele se apresenta de modo tão flagrante quanto no Brasil, onde o crime de massa tornou-se crônico, e tende à guerra civil. Aqui também a cultura superior e a cultura popular desapareceram. Assim como os grandes escritores brasileiros estão no passado, a música popular brasileira deixou de existir. Hoje só existe uma música de massa, pornográfica, chula, berrada tanto pelos jovens pobres e marginais quanto pelos jovens de classe média e alta. A juventude tornou-se animalesca, estúpida, brutal. Sociólogos imbecis defendem o que eles mesmos chamam de narcocultura, uma nova aliança entre as mídias e o narcotráfico. Ouvir o rádio ou assistir à TV requer, de quem ainda se mantém íntegro, um estômago forte como o que se deve ter para ver Salò. Como os prisioneiros do filme de Pasolini, os brasileiros estão se alimentando, simbolicamente, de fezes. Até os jovens mais sensíveis tatuam o corpo, esburacam-no com piercings, argolas, brincos alargadores. Tentam parecer-se com selvagens. Odeiam a cultura humana, e a própria humanidade. Preferem a natureza e os bichos.
Qual a importância de se investigar o assassinato de Pasolini?
O assassinato de Pasolini, no momento em que ele se deu, isto é, quando o cineasta finalizava Salò (o filme mais maldito da história do cinema); denunciava a corrupção de todos os poderes na Itália, não poupando nem a direita nem a esquerda em suas diatribes; propunha o fechamento das escolas primárias e da televisão, para se recomeçar do zero; e anunciava seu retorno ao romance com Petrolio, para desmascarar todos os corruptos, foi evidentemente um crime político, para calar a voz mais perturbadora da vida italiana. Por envolver um grande artista italiano de renome mundial num crime homossexual normalmente reservado às páginas policiais dos tablóides sensacionalistas, o massacre de Pasolini tornou-se um crime misterioso, mítico. Lembra o despedaçamento de Orfeu pelas bacantes (Orfeu havia introduzido a homossexualidade entre os gregos e, com sua lira, a poesia, despertando a ira de muitas mulheres que por ele se apaixonavam). Ou pensando mais politicamente, lembra a decapitação de João Batista… Por sua dança, Salomé pediu em troca, para o rei Herodes, numa bandeja de prata, a cabeça do profeta que a todos perturbava com suas visões da decadência do reino. Ao abafar o crime, recusando-se a investigá-lo a fundo, a Justiça italiana agiu como Herodes, entregando a cabeça de Pasolini à Salomé. Resta-nos saber quem foi a Salomé neste crime, isto é, aqueles que encomendaram o assassinato de Pasolini. Depois que Pelosi, réu confesso, voltou atrás e declarou publicamente não ter sido o único assassino, tendo se incriminado sob ameaça; e da suspeita do cineasta Sergio Citti, de que os mesmos que haviam roubado os negativos de Salò poderiam ter induzido Pasolini a uma armadilha para linchá-lo, tornou-se evidente como nunca que os verdadeiros autores do delito haviam escapado à Justiça. A Procuradoria de Roma foi obrigada a reabrir o processo, mas alegando falta de provas, encerrou-o de imediato. Essa investigação foi arquivada antes mesmo de iniciar-se. Poucas vozes indignadas fizeram-se ouvir contra a nova recusa de esclarecer o crime. A notícia chegou a poucos jornais, dentro ou fora da Itália. Durante os últimos trinta e dois anos foram apagadas as provas, ignorados os indícios, desprezados os testemunhos, desacreditadas as investigações independentes de juristas, jornalistas, intelectuais. Diante da decisão da Procuradoria, a prefeitura de Roma constituiu-se parte ofendida no processo, forçando uma nova investigação. Em 2006, um grupo de artistas e intelectuais, entre os quais Giuseppe Bertolucci, Ninetto Davoli, Gian Carlo Ferretti, Marco Tullio Giordana, Bernard Henri-Lévy, Dacia Maraini, Silvana Mauri Ottieri, Enzo Siciliano, Gianni Biondillo e Angela Molteni, sentiram-se igualmente ofendidos; e publicaram um Apelo à Justiça italiana (que pode ser lido no sítio Il primo amore). Lembravam que o massacre de Pasolini foi “o mais atroz assassínio de um poeta da idade contemporânea, mais torpe que o assassínio de Garcia Lorca, um verdadeiro massacre de grupo, ocorrido em Roma, na Itália, pelas mãos de italianos”. Apesar de todos esses esforços, creio que nada de concreto se obteve, nem se obterá… A morte de Pasolini contém o mistério de sua própria vida.
Você fala no livro do encontro (e amizade) de Pasolini e Glauber. Glauber viveu um período do seu exílio na Itália. Poderia falar um pouco desta relação?
Glauber encontrou-se, pelo que sei, umas três vezes com Pasolini: a primeira, em Roma, em 1965, rapidamente, durante uma projeção privada de Deus e o Diabo na Terra do Sol organizada pelo embaixador Arnaldo Carrillo; a segunda, no Festival de Veneza, em 1967, provavelmente numa coletiva de imprensa; e mais tarde, em Roma, onde foram juntos almoçar num restaurante, único encontro que poderia ser assim definido. Nunca foram amigos. Pasolini demonstrou, em seus escritos sobre cinema, não gostar dos dois únicos filmes de Glauber que viu: Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Já Glauber escreveu admirativamente sobre o cinema de Pasolini, mas a sua era uma admiração tingida de desconfiança, além de desprezo e inveja pelo estilo de vida do escritor e cineasta italiano. Acusava Pasolini, que ganhava um bom dinheiro com seus filmes difíceis, mas atraentes, de não fazer um cinema de “macho” como o que ele supostamente fazia, e com o qual não conseguia atrair o público e quase nada ganhava. Também acusava Pasolini de “colonizar o sexo dos pobres” na Trilogia da vida, de entregar-se à “sexualidade fascista” em Salò, de “explorar o cu do subproletariado” em sua vida particular. Com essas frases de efeito, Glauber denotava certa homofobia típica do jagunço nordestino, sentimento que a grande atriz e musa Helena Ignez negou existir em seu ex-companheiro, mas que está registrada na entrevista gravada que ele concedeu à revista francesa Cahiers du cinéma pouco antes de morrer. O cineasta baiano, que amava – pelo menos em seu cinema – a força das armas e do povo revoltado, não conseguia identificar no cinema de Pasolini o desejo de poder a que todo macho de esquerda aspira. Mas Pasolini não estava interessado no poder; o que ele amava – em seu cinema e em sua vida – era o sexo vigoroso dos rapazes do povo, a virilidade simples dos corpos populares, a homossexualidade passageira dos camponeses do Friuli, dos marginais de Roma, dos pobres do Terceiro Mundo.
Na entrevista que o senhor deu para um site da 2001 vídeo o senhor afirma: “O que fez Pasolini passar da língua escrita (literatura) para uma mais complexa língua escrita da ação (cinema) foi sua percepção de que, de modo catastrófico, o italiano técnico tornara-se, nos anos de 1960, a língua dominante na Itália”. E esta é uma passagem da vida de Pasolini que me parece bastante intrigante. Pasolini – antes de tudo poeta e escritor – se “transforma” em cineasta. Poderia falar um pouco o que pensa desta passagem?
No início dos anos de 1960, ocorre na Itália o chamado “milagre econômico”, uma recuperação bastante visível do país que fora arrasado na Segunda Guerra. O trauma dos anos do fascismo e da República de Salò; o orgulho da Resistência; o panorama de pobreza, desemprego e humilhação pelo fascismo ainda remanescente após a Libertação foram bem retratados pelo cinema neo-realista do pós-guerra, em filmes como Roma, cidade aberta, Paisà, Ladrões de bicicleta, Sciuscià, Arroz amargo, La terra trema, etc.. Pasolini viveu este período com muito medo de ser fuzilado pelos fascistas, depois de ser convocado pelo exército e ter logo depois desertado. Refugiado em Casarsa, perdeu o irmão, engajado num grupo de Resistência nacionalista, fuzilado por guerrilheiros comunistas, num conflito que envolvia reivindicações do território do Friuli. Depois da guerra, Pasolini engajou-se no Partido Comunista e apoiou a luta dos camponeses, sem pretender, contudo, uma revolução no estilo soviético. Logo foi expulso do PCI por conta de um rumor infamante que o levou a assumir sua homossexualidade publicamente. Com o escândalo, foge para Roma com a mãe, deixando o pai fascista e furioso berrando atrás deles. Neste período, Pasolini era um literato que escrevia, além de peças, ensaios e romances, poemas em italiano e em friulano, valorizando um dos muitos dialetos da Itália, os quais eram proibidos pelo Estado fascista, na meta da uniformização, da coesão, do alinhamento de todos os cidadãos. Em Roma, para sobreviver, Pasolini entra no fim dos anos de 1950 em contato com o mundo do cinema, através do escritor Ítalo Calvino, que já escrevia roteiros, e inicia sua atividade de roteirista. Nos anos de 1960 dá-se uma transformação na Itália, com a recuperação econômica que também colocará um fim tanto às esperanças de uma revolução socialista quanto ao neo-realismo no cinema. Pasolini passa da literatura e da escritura de roteiros para a realização de seus próprios filmes justamente nesta época de transição, de uma cultura política, engajada, humanista, ainda que marcada pelo catolicismo e pelo stalinismo, para uma cultura de massa, consumista, histérica, afastada das antigas ideologias. No contexto, embora seus primeiros filmes sejam influenciados pelo neo-realismo, Pasolini percebe o italiano como língua já corrompida pelo consumismo, que destrói, ainda mais que o fascismo, os dialetos e as diversas culturas regionais em prol de uma única cultura transmitida pelas mídias; e procura fazer de seu cinema uma nova língua para expressar seu amor pela realidade; isto é, pelos jovens e rapazes do povo, registrando com a câmara sua realidade concreta, corporal, sensual, seus gestos característicos, sua fala dialetal, tudo o que percebia estar em vias de desaparecer devido ao que chamou de genocídio cultural: um novo fascismo, pior que o velho fascismo, que não conseguira realizar a unificação total que o consumismo, através dos novos meios de comunicação de massa, estava, sim, conseguindo.
Uma mais genérica: a relação de Pasolini com a esquerda italiana. Poderia falar um pouco desta relação?
Pasolini era um homem de esquerda, “companheiro de caminhada” do Partido Comunista Italiano, mas também do Partido Radical. Contudo, diferia dos homens de esquerda pela forma como chegou ao marxismo: não simplesmente através da leitura de Marx e Gramsci, ou seja, através do pensamento abstrato, mas sim através do seu contato físico com os camponeses do Friuli, de maneira física, corporal, sensual; e só depois através do pensamento abstrato. Por isso suas posições são singularmente concretas frente às posições abstratas da esquerda burguesa dos partidos comunistas e socialistas. E seu pensamento abstrato nunca é puramente abstrato, mas mesclado pelas suas sensações vividas, pelo contato físico direto com os jovens pobres do campo, da periferia das cidades, do Terceiro Mundo.
Na entrevista ao site 2001vídeo, você escreve: Ao reler atentamente o famoso ensaio “Il Cinema di Poesia”, publicado na revista Filmcritica em 1965, percebi que ele usava o termo para definir o novo cinema que via surgir, ao acompanhar os festivais de cinema nos quais seus primeiros filmes eram selecionados. Ele percebia que este cinema podia ser produzido e exibido com certo sucesso graças à existência de um segundo canal de exibição, de um novo mercado basicamente formado por jovens universitários saídos da burguesia, mas que tinham uma visão de mundo supostamente contrária à ideologia de seus pais. Embora seus filmes se confundissem com esse cinema de poesia, em contraste com o cinema de prosa narrativa, cuja linguagem desenvolvida por Griffith, Ford, Hitchcock, Wilder, etc. predominava no chamado cinema comercial, Pasolini não os enquadrava neste conceito. Ele criara o conceito justamente para polemizar contra o cinema de poesia cujos cineastas (Godard, Glauber, Antonioni, Forman, etc.) acreditavam-se revolucionários. Mas esses “revolucionários” eram, a seu ver, burgueses em sua vida e na vida reproduzida em seus filmes, apenas se beneficiando deste segundo canal de exibição, ou seja, fazendo filmes comerciais para uma elite intelectual, que os consumia como produtos “revolucionários” contra a ideologia burguesa de seus pais. É o mesmo sentido que deve ser procurado no poema “O PCI aos jovens!”, no qual Pasolini alertava que os jovens revolucionários de 1968 eram os empresários de amanhã e que sua simpatia pendia para os policiais apedrejados que eram os pobres de sempre… Pasolini, que não levava uma vida burguesa e não fazia um cinema comercial nem um cinema revolucionário entre aspas, tinha consciência do que fazia e da vida objetivamente revolucionária que levava; e que o levaria a ser assassinado. Ele desejava que seus filmes (eu os chamaria de cinema de prosa poética, pois não se identificavam nem com o cinema de prosa narrativa, nem com o cinema de poesia) fossem vistos pelo que eram: cinema hermético, aristocrático, dirigido à elite intelectual, revolucionário por sua dimensão erótica, mítica e antropológica — sua Grande Recusa da sociedade industrial. O que chama atenção é a impressionante atualidade e o tom profético da obra de Pasolini. Poderia falar um pouco mais disto?
Pasolini estava muito à frente de seu tempo, porque percebia as mudanças sociais no contato direto e cotidiano com aqueles corpos que, dentre todos, eram os que estavam sendo mais submetidos à mutação antropológica operada pela sociedade tecnológica. E ainda vivia num país tão rico em culturas particulares que essa uniformização se tornava ainda mais dramática e desesperadora. Antes mesmo de Pasolini, ainda nos anos de 1950, o filósofo Herbert Marcuse havia previsto essas mutações no livro A ideologia da sociedade industrial. Foi quem primeiro anunciou a gestação da sociedade unidimensional: uma sociedade tecnológica sem dimensão crítica nem possibilidade de oposição, pela integração dos proletários no consumo em massa, que transformava os antigos “sujeitos revolucionários” de Marx em fiéis mantenedores do status quo, que os beneficiava como nunca antes. A originalidade de Pasolini foi viver essa percepção em seu corpo e exprimi-la com toda sua força poética. “Eu não sei nem como nem quando, mas alguma coisa de humano acabou”, escreveu num poema. E ainda: “A morte não é não poder mais comunicar-se, é não poder mais ser entendido”. Em outro momento, afirmou: “Eu daria toda uma multinacional em troca de um único vaga-lume”, observando que a poluição industrial exterminara os vaga-lumes, que iluminavam os campos de sua juventude.
Por fim gostaria de falar um pouco do legado da obra dele
Pasolini deixou-nos mais de 16 mil páginas de literatura, em todos os gêneros. Mas neste corpus de Tutte le Opere do escritor, recentemente publicadas pela Mondadori em dez volumes, faltam seus 26 filmes, além das inúmeras entrevistas que concedeu para a rádio e a TV. É que Pasolini era um autor multimídia, cujas obras completas deveriam ser reunidas não apenas em livros, mas também em DVDS. No futuro, isto deverá ser feito com autores como ele. Homossexual revolucionário, Pasolini era avesso ao movimento gay, que considerava burguês. Nas emocionadas e emocionantes palavras que o escritor Alberto Moravia, seu melhor amigo, proferiu em suas exéquias, ele declarava que o mundo perdia o maior poeta italiano do século XX: “Mataram um poeta! Um poeta não nasce todo dia! Um poeta nasce a cada século! Pasolini era o maior poeta italiano deste século!”. E eu diria que ele foi um grande poeta não apenas em seus poemas, mas também em seus filmes e mesmo em seus ensaios. Era um pensador libertário que escreveu com emoção e originalidade sobre a totalidade do mundo; um cineasta que marcou, com sua divinização do real, a teoria e a prática do cinema; um polemista implacável que, na contracorrente dos intelectuais hipócritas e conformistas, desnudou os horrores do crescimento econômico, que destrói o mundo humano e gera, ao lado da riqueza, uma insuportável violência de massa. Crescimento econômico sonhado por todos, tanto pelo poder de direita, sem ética, corrupto, falsamente tolerante, que oferece o sexo e o consumo compulsórios como paliativos à destruição, quanto pelas oposições de esquerda, igualmente sem ética, corruptas, deslumbradas com os avanços tecnológicos.
28 Mai
O CINEMA DE PASOLINI
LUIZ NAZARIO responde a Anderson Vitorino, em entrevista realizada a 12 de setembro de 2007 para o Acervo 2001 Vídeo
Como conheceu o cinema de Pasolini? Qual é a primeira lembrança desse contato?
O primeiro filme de Pasolini que vi foi Medéia, no antigo Cine Bijou. Fiquei apaixonado pelo Centauro! Logo depois vi Édipo Rei e me espantei com a imagem da árvore sagrada e a visão simples e eficaz da Esfinge como uma máscara primitiva de corpo inteiro. Logo decifrei as metáforas escabrosas de Pocilga e mergulhei no universo erótico e sagrado de Teorema. Sou, por isso, infinitamente grato ao cine Bijou, aquela pequena sala na Praça Roosevelt cujo porteiro visionário fechava um olho para deixar os jovens cinéfilos como eu, que não haviam completado dezoito anos, entrar em contato com o cinema moderno. Ali vi: Persona, A hora do lobo, Gritos e sussurros, Diabólicos sedutores, Vanishing Point, Pequenos assassinatos, Sob o domínio do medo, A noite dos desesperados, Outback, O mensageiro, O criado, O belo Antônio, Domingo maldito, Longe deste insensato mundo, Esse mundo é dos loucos, O bebê de Rosemary, Delírio de amor, Mulheres apaixonadas, Lisztmania, Mahler, Valentino, Morte em Veneza, Os deuses malditos, Violência e paixão, Metello, Este crime chamado Justiça, O jardim dos Finzi Contini, Satyricon, Roma, Ammarcord, A bela da tarde, A Via Láctea, O discreto charme da burguesia, O fantasma da liberdade, Z, A confissão, Estado de sítio, Próxima parada bairro boêmio, Madame Rosa, Ensina-me a viver, Voar é com os pássaros, Três mulheres, Nashville, Depois daquele beijo, Zabriskie Point… O cinema dos anos de 1960-1970 tinha uma qualidade humana, política e perversa que nos fazia respirar mesmo sob a ditadura e que desapareceu com a cada vez mais dominante cultura de massas produzida sob o terror da AIDS. Ver todos esses filmes maravilhosos na adolescência fez de mim um apaixonado pelo cinema complexo, elitista e libertário, de que Pasolini era um dos principais representantes.
O que proporcionou o florescimento do cinema e de toda produção teórica de Pasolini? Em outras palavras, quais as influências do cineasta e escritor Pasolini?
O que fez Pasolini passar da língua escrita (literatura) para uma mais complexa língua escrita da ação (cinema) foi sua percepção de que, de modo catastrófico, o italiano técnico tornara-se, nos anos de 1960, a língua dominante na Itália. Desapareciam os dialetos, as pequenas culturas locais, os particularismos regionais, em benefício da nova cultura técnica produzida e consumida pelas massas aburguesadas, e representada, sobretudo, pela publicidade e pela televisão. Isto fez com que, por volta de seus 40 anos, e sem nenhuma formação técnica em cinema (a não ser sua atividade de roteirista), o então já famoso escritor abandonasse a escritura de romances (e dos roteiros que escrevia para outros diretores) e se dedicasse à realização de seus próprios filmes. Como cineasta sem compromisso com a indústria do cinema, Pasolini encontrou o que procurava: uma língua mais próxima da realidade de seus personagens saídos dos campos de Friuli e das periferias de Roma, dos rapazes pobres e marginais que ele amava noite após noite. Conviver durante todo o tempo de filmagem com os corpos que eram os objetos de seu desejo foi uma das principais motivações de Pasolini. Movido por essa primeira motivação, desenvolveu um tipo de narrativa que, servindo-se da música sacra (por exemplo, em Desajuste social, Mamma Roma, O Evangelho Segundo S. Mateis) e da pintura sacra (por exemplo, em A ricota, Decameron, Os contos de Canterbury), aproximava seu Eros do universo mítico. Sua prática cinematográfica inspirou-o a criar uma semiologia da realidade pela associação do código da vida a um plano-seqüência infinito, num contexto em que a morte seria necessária para dar sentido à vida. A morte remeteria à edição de um filme, sendo o diretor que edita seu próprio filme comparável àquele que fala através da realidade: Deus. Essa teoria levou Pasolini a sacralizar tanto o cinema (autoral) quanto a realidade (humana). E, dentro desta realidade, o sexo estava, para Pasolini, em primeiro plano.
Qual a importância de ainda investigar e questionar as ocasiões do assassinato de Pasolini?
A importância da reabertura do processo está, mais do que em solucionar o próprio crime, em investigar as razões pelas quais o assassinato não foi devidamente investigado na época. Passados mais de trinta anos, já desapareceram as evidências materiais que poderiam ser encontradas, e que eventualmente serviriam para conduzir os investigadores aos verdadeiros autores do massacre de Pasolini, já que Pino Pelosi não foi seu único perpetrador, como se suspeitava à época, e conforme o próprio assassino recentemente confessou. Mas se dificilmente encontrarão provas, ainda é possível investigar o próprio processo e descobrir os responsáveis pelo acobertamento do crime político e homofóbico, acobertamento igualmente motivado por ódio político e homofobia: toda a simpatia dos poderes públicos e das mídias sensacionalistas foi dirigida ao agente criminoso, e não à vítima do crime. Mesmo alguns intelectuais, como o poeta vanguardista Edoardo Sanguineti, comemoraram a morte de Pasolini: “Finalmente nos livramos, aos pontapés, desse confusionista, resíduo dos anos cinqüenta”, ele escreveu.
O cinema de Pasolini é considerado por muitos como um cinema de poesia, em oposição a um cinema narrativo. Você pode comentar um pouco sobre isso?
Já caí neste erro. Mas ao reler atentamente o famoso ensaio “Il Cinema di Poesia”, publicado na revista Filmcritica em 1965, percebi que ele usava o termo para definir o novo cinema que via surgir, ao acompanhar os festivais de cinema nos quais seus primeiros filmes eram selecionados. Ele percebia que este cinema podia ser produzido e exibido com certo sucesso graças à existência de um segundo canal de exibição, de um novo mercado basicamente formado por jovens universitários saídos da burguesia, mas que tinham uma visão de mundo supostamente contrária à ideologia de seus pais. Embora seus filmes se confundissem com esse cinema de poesia, em contraste com o cinema de prosa narrativa, cuja linguagem desenvolvida por Griffith, Ford, Hitchcock, Wilder, etc. predominava no chamado cinema comercial, Pasolini não os enquadrava neste conceito. Ele criara o conceito justamente para polemizar contra o cinema de poesia cujos cineastas (Godard, Glauber, Antonioni, Forman, etc.) acreditavam-se revolucionários. Mas esses “revolucionários” eram, a seu ver, burgueses em sua vida e na vida reproduzida em seus filmes, apenas se beneficiando deste segundo canal de exibição, ou seja, fazendo filmes comerciais para uma elite intelectual, que os consumia como produtos “revolucionários” contra a ideologia burguesa de seus pais. É o mesmo sentido que deve ser procurado no poema “O PCI aos jovens!”, no qual Pasolini alertava que os jovens revolucionários de 1968 eram os empresários de amanhã e que sua simpatia pendia para os policiais apedrejados que eram os pobres de sempre… Pasolini, que não levava uma vida burguesa e não fazia um cinema comercial nem um cinema revolucionário entre aspas, tinha consciência do que fazia e da vida objetivamente revolucionária que levava; e que o levaria a ser assassinado. Ele desejava que seus filmes (eu os chamaria de cinema de prosa poética, pois não se identificavam nem com o cinema de prosa narrativa, nem com o cinema de poesia) fossem vistos pelo que eram: cinema hermético, aristocrático, dirigido à elite intelectual, revolucionário por sua dimensão erótica, mítica e antropológica – sua Grande Recusa da sociedade industrial.
Qual o legado e a importância da obra do escritor, poeta e cineasta italiano hoje?
A obra do escritor Pasolini é imensa: mais de 16 mil páginas de poemas, romances, contos, crônicas, ensaios, peças, roteiros e cartas. Este é o corpus de Tutte le Opere do escritor, recentemente publicadas pela Mondadori em dez volumes (o maior número entre os autores da coleção de obras completas I Meridiani). Mas Pasolini também foi um dos grandes cineastas do cinema moderno, e realizou, em apenas quatorze anos de atividade, como diretor, 26 filmes, além de conceder inúmeras entrevistas para a rádio e a TV, evidentemente não incluídas em suas “obras completas”. Trata-se, enfim, de um autor multimídia, que antecedeu de décadas nossa atual realidade multimídia. Hoje é possível reunir as obras completas de um autor multimídia em livros acompanhados de uma coleção de DVDS, e talvez no futuro, isto seja feito com autores como Pasolini. A importância deste legado também é imensa: Pasolini foi o profeta de uma homossexualidade revolucionária; o maior poeta italiano do século XX na visão de Alberto Moravia; um pensador libertário que eu colocaria ao lado de Jean-Paul Sartre e Herbert Marcuse; um cineasta que marcou, com sua sacralização da realidade, a teoria e a prática do cinema moderno; e um polemista radical, que denunciou, antes de todos, que a sociedade tecnológica estava, com o apoio de intelectuais hipócritas e conformistas, destruindo o mundo humano e gerando uma violência de massa, sob um poder sem ética, falsamente tolerante, que oferecia o sexo e o consumo compulsórios como paliativos: um sistema dominado por corruptos de direita e de esquerda, e que Pasolini considerava mais fascista que o velho regime fascista.



