ROMA, SEUS GATOS E SEUS ARTISTAS

ROMA - Il giardino di Domenico Persiani - 1

O maravilhoso jardim de cerâmica de Domenico Persiani. Foto de Luiz Nazario.

26 de dezembro de 1993

Tomo um comprimido para dormir no avião que me leva a Israel, com escala em Roma, onde descemos para um pequeno tour. Guardando a estranha sensação de sono quimicamente induzido, passeio pela “cidade eterna” como um sonâmbulo. Faz frio. De dentro do ônibus, avisto a única pirâmide da Europa, o Coliseu, as Termas de Caracala, a Igreja Santa Maria a Maior, a primeira muralha de Roma ao fundo da Stazione Termine, as Termas de Diocleciano transformadas numa igreja. Caminho pela Via Nationale, até o Monumento de Victor Emmanuel, e subo ao Quirinal. Observo com tristeza a coleta semanal das moedas atiradas na Fontana de Trevi, destinadas à caridade: ainda não vi a Fontana jorrando. Sigo pela Via del Corso, velha de dois mil anos, até o Templo de Adriano, hoje ocupado por escritórios. Finalmente, descubro o Pantheon.

O Pantheon era um templo pagão, até o século V, quando Júpiter, Zeus, Minerva e todos os outros deuses tiveram suas estátuas destruídas. No vazio do pantheon (“todos os deuses”) foram erigidos os altares cristãos da igreja Santa Maria dos Mártires. O buraco da cúpula, que permitia a saída do fumo do fogo sagrado, única abertura além da porta desse templo sem janelas, perdeu sua função primordial. Podemos admirar, porém, esta que é considerada a primeira cúpula do mundo, com 42 metros de altura por 42 de diâmetro, num edifício todo redondo, com paredes de doze metros de espessura. O nome de seu arquiteto não chegou à posteridade. Mas continuamos a nos maravilhar com o chão de mármore, as colunas originais e as portas de bronze – cada qual pesando dez toneladas.

Depois de passar pela Praça da Rotonda, onde se hospedou, em 1513, no número 1.348, o poeta Ludovico Ariosto, ganho a Praça Navonna, construída no lugar de um antigo hipódromo, cuja forma característica ela conservou. Por trás dessa praça que Ela Morante considerava a mais bela do mundo, “a praça central do universo”, ainda podemos ver as ruínas do hipódromo. As quatro figuras da fonte representam os quatro maiores rios então conhecido: o Nilo, o Danúbio, o Ganges e o Rio do Prata. A Praça Navonna ignorava o Amazonas, mas hoje abriga a Embaixada Brasileira.

Atravesso a ponte Cavour e chego à Tumba de Adriano, em torno da qual foi construída a fortaleza do Castelo de Sant’Angelo, em 1472. Pela Via della Conziliazione, alcanço a Praça San Pietro, ainda com sua decoração natalina. No jardim dos Museus do Vaticano, observo melhor e consigo apreciar a Sfera con Sfera (1990) de Arnaldo Pomodoro. Da primeira vez que vi essa escultura no pátio do Vaticano sua modernidade me pareceu agredir a atmosfera daquele mundo antigo, fazendo o mesmo efeito que a Pirâmide de vidro no Museu do Louvre. Ainda reluto em aceitar esses mistifórios, esses mesclados, essas mixórdias arquitetônicas que agradam tanto os contemporâneos.

Apesar do frio, o céu está profundamente azul. Diante da Pietà, comovo-me novamente até as lágrimas. Alguns anos atrás, um louco destruiu a marteladas o rosto da Virgem. Desde então, a Pietà, restaurada, só pode ser vista através de um vidro protetor. Michelangelo a esculpiu aos 24 anos, e recebeu muitas críticas pelo fato de ter representado Nossa Senhora tão jovem, quando Cristo teria morrido aos 33 anos. A resposta de Michelangelo foi sublime: ela é jovem e bela porque é assim, sempre bela e jovem, que um filho vê a sua mãe.

Desta vez, vi também a famosa estátua de São Pedro, atribuída ao escultor Arnolfo di Cambio, do século XIII: feita de bronze, os dedos de seus pés foram pouco a pouco consumidos pelos beijos e carícias dos fiéis, em  800 anos de veneração. O que é formidável nesta catedral arquitetada por Michelangelo é que, dedicada a São Pedro, nela tudo é de pedra: não há em suas paresdes nenhuma pintura, apenas mosaicos gigantescos com as sete cores do arco-íris multiplicadas em quatro mil tons, de modo a produzir 28 mil nuances de cores: imaginamos ver telas pintadas a óleo, mas tudo é mosaico de pedra colorida…

20 de janeiro de 1994

Depois de um mês passado em Israel, volto a Roma para um mês de passeios e descobertas. Assim que me encontro livre, telefono a Dacia Maraini. A secretária eletrônica pede recados em italiano e inglês. Começo a falar num italiano horrível. Mas assim que digo meu nome, Dacia tira o fone do gancho e me saúda com sua voz decidida. Tem um compromisso no dia seguinte, e hoje vai ao teatro. Como vou depois de amanhã a Pompéia, decidimos nos encontrar no Teatro Argentina logo mais às 20h45.

Chego meia hora antes da hora marcada e espero mais que o necessário: às 20h45 vejo Dacia, sempre pontual, aproximar-se com passos firmes. Um amigo a trouxe de carro e foi estacionar nas proximidades. Beijamo-nos e, antes de qualquer palavra, ela corre até a bilheteria para trocar os convites por ingressos. Esperamos seu amigo e nos separamos: sem ingresso marcado, tenho que ficar à espreita de um lugar vazio até as luzes se apagarem. Passo a observar a arquitetura do teatro. O prédio parece moderno, mas sua fachada branca é, na verdade, uma construção posterior, que recobre o teatro original.

O interior do Teatro Argentina é uma estrutura oval barroca, do século XVIII. Os pequenos balcões retangulares obrigam os espectadores a se debruçarem nos postigos, como nas varandas de um prédio. O teto redondo, com desenhos em tons esverdeados, contrasta com o veludo vermelho que recobre as paredes e as poltronas. De qualquer lugar da platéia tem-se uma boa visão do palco. Quando as luzes se apagam e começo a ouvir as vozes dos atores, dou-me conta de que nada entendo de Le baruffe chiozzotte, de Carlo Goldoni, em montagem de Giorgio Strehler, passada entre os pescadores de Chioggia, e escrita no dialeto daquela região.

Dacia tranqüiliza-me: tampouco a platéia romana entende o dialeto em que os diálogos foram escritos! De fato, observei que muitos espectadores dormiam nas poltronas: só acordaram ao final, para aplaudir com entusiasmo… Assim que termina a peça, Dacia me arrasta até o camarim: ela quer cumprimentar a estrela, sua amiga. É uma bela mulher, ainda tirando suas roupas de cena e vestindo um roupão azul, uma estrela sem estrelismo, simpática e sorridente, que havia reservado nossos dois ingressos.

Pompéia

Um domingo triste, vazio, como deve ser sempre em Roma os domingos de inverno. Entro no ônibus quase vazio da excursão que me leva a Pompéia. De hotel em hotel, o italianinho da agência caminha pacientemente à cata de turistas. O gordo motorista o espera, e nós com ele. No fim, nenhum turista foi recolhido. O motorista comenta decepcionado: “Quatto gatti! Quattro gatti e mezzo!” (“Quatro gatos! Quatro gatos e meio!”). Quem de nós seria o “meio” gato? O italianinho? Eu?

Passamos por Monte Cassino, antigo mosteiro medieval de estudos escolásticos, destruído na Segunda Guerra – a Batalha de Monte Cassino durou oito meses e consumiu a vida de 25 mil soldados aliados. Passamos também por Nápoles, sem parar, apenas vislumbrando filas de roupas nas janelas, casas coloridas e jovens musculosos correndo na orla da praia. No cemitério da cidade – revelou o guia – está enterrado o grande Caruso. A cidade possui o segundo melhor museu de arqueologia da Europa, depois do British Museum.

Pode-se subir pelo Vesúvio de automóvel até mil metros de altura. Sua lava é rica em minérios e favoreceu a cultura de laranjas, limões e uvas – o Lacrima Christi é da região. O Vesúvio destruiu três cidades no ano de 79: Pompéia, então com 22 mil habitantes; Herculano, com 5 mil habitantes; e Castelamare, a menor das três. As lavas caíram durante três dias e três noites, deixando as três cidades cobertas por uma camada de três a quatro metros de cinzas.

O Vesúvio permanece ativo, assim como o Etna: sua última erupção deu-se em 1944. Algumas obras-primas foram encontradas nas escavações: o Dicionário achado em 1961 em Herculano; o Cepolo lampadofono em bronze descoberto em 1977 na casa de Caio Gilio Polibio. As escavações das cidades soterradas começaram em 1748 e nunca terminaram. Cerca de 1/3 da cidade intramuros não foi ainda escavado. Muitos amuletos fálicos e lâmpadas fálicas e tintinabolas ainda serão encontradas. Como bem escreveu Goethe sobre Pompéia e Herculano, “de todas as catástrofes que se abateram sobre o mundo, nenhuma provocou tanta alegria às gerações seguintes.”

Palestrina

Desejando também conhecer Palestrina, tomo um ônibus – caindo aos pedaços – e chego encantado na pequena cidade toda cor de terra. No Museu Arqueológico Prenestino admiro o lindo mosaico do Nilo, e os interiores afrescados do palácio, de onde se tem deslumbrante visão de toda a aldeia, que na época romana era um gigantesco santuário dedicado a Fortuna Primigênia. O nome da aldeia vem de seu mais ilustre habitante: Pierluigi da Palestrina, criador da música polifônica da Renascença, e cuja casa ainda pode ser visitada. Também as  casas de veraneio de Thomas Mann e Heinrich Mann encontram-se perto da praça central, numa ladeira cheia de vasos de flores. Alguns de seus romances têm a cidade como cenário.

De volta a Roma

De volta a Roma, passo a manhã no Vaticano. A missa é celebrada pelo papa João Paulo II, que me pareceu cansado e doente, apoiando-se sempre num bastão, a cabeça baixa e o peso do mundo sobre as costas. Pregou uma peregrinação de joelhos até a Bósnia – onde a “limpeza étnica” matou cerca de 300 mil pessoas, e 60 mil mulheres foram violadas em nome da “grande Sérvia”. A cerimônia é lenta e arrastada: deixo a catedral antes do término da missa.

Acompanho o Festival de Cinema Fantástico e vejo Things to come (1936), de William Cameron Menzies, escrito por H. G. Wells: o filme apresenta uma visão extraordinária da sociedade devastada por uma guerra mundial, seguida de uma epidemia de “febre errante”, que dizima metade da raça humana. Em Metropolia, um ditador governa com mãos de ferro e manda fuzilar todos os que apresentam os sintomas da doença. Os homens de ciência unem-se e planejam tomar o poder, estabelecendo um governo mundial único, baseado na lei, contra as guerras fratricidas produzidas por ditadores nacionalistas tribais. Os cientistas-governantes imaginam um mundo futuro de ordem e paz.

It Came from Beneath the Sea(1955), de Robert Gordon: típico exemplar de science-fiction dos anos de 1950, com polvo gigante, cientistas em ilha isolada, militares convocados para destruir o monstro. Os efeitos especiais são assinados por Ray Harryhausen.

Tormented (1960), de Robert Gordon: um pianista de jazz é procurado pela ex-amante, que se opõe a seu casamento com uma jovem despreocupada, a quem ele ama de verdade. O casal briga no alto de um farol, a megera despenca, e o rapaz nem tenta salvá-la. Mais tarde, os seus remorsos são acompanhados do aparecimento do fantasma da mulher. Uma cega pressente acontecimentos funestos. O pianista torna-se um assassino compulsivo, a ponto de quase matar a irmãzinha da noiva, que o tem por seu melhor amigo. A grande cena do filme: durante a cerimônia religiosa de casamento, a mulher fantasma penetra na igreja e faz murchar todas as flores que a ornamentam, incluindo o buquê que a noiva tem nas mãos.

26 de janeiro de 1994

Leio nos jornais romanos a denúncia de Leonard Cole ao New York Time: milhões de cidadãos americanos teriam sido submetidos, há 20 anos, a bombardeios bactereológicos ordenados por autoridades militares, a título experimental. Lampadinhas carregadas de bactérias teriam sido lançadas no metrô de Nova York no momento de maior concentração de passageiros, e no aeroporto de Washington uma valise com ventiladores internos teria espalhado bactérias na sala de espera. Desejava-se conhecer os efeitos de um ataque bactereológico sobre massas em movimento. Descobriu-se que alguns dos passageiros morreram depois da experiência…

Há um sintoma neoprimitivo no ar: os novos selvagens do conglomerado sentem falta dos dinossauros! É o que me ocorre ao visitar I Dinossauri, a exposição oficial de Jurassic Park, na Stazione Termini. Numa réplica do Parque dos Dinossauros montada num amplo espaço, encontram-se os bonecos monstruosos que serviram para algumas cenas do filme. Vejo também um dos mais antigos ovos de dinossauro encontrados no hemisfério norte, o único sobrevivente entre doze mil ossadas de dinossauros de Cleveland Lloyd, e que chegou até nós por ter quebrado dentro do útero da fêmea, fossilizando-se. Ao que tudo indica, trata-se de um ovo de allossauro, uma vez que 85% das ossadas ali encontradas eram de allossauros. Havia também muitos cristais com insetos e barbatanas de estegossáurios. Só me interessava, contudo, ver os storyboards originais do filme de Steven Spielberg. Parece que os organizadores não  acreditaram muito em suas atrações, pois instalaram pelos cantos outros objetos que pouco tinham a ver com o filme…

Aqui, por exemplo, uma balança cósmica: descubro que estou pesando 80 quilos na Terra; 96 em Netuno; 204 em Júpiter; 72 em Venus; 64 em Urano; 96 em Netuno. Acolá, o relógio mais preciso do mundo, o HP 5071 A, da Hewlett-Packard, à base de Cesio 133, com nove bilhões de oscilações por segundo, com um máximo de 1 segundo de erro a cada milhão e seiscentos mil anos. Aproveito para acertar meu relógio. À saída da exposição, entre as 17 e as 18 horas, milhões de pássaros saúdam os que chegam e partem de Roma. É um espetáculo mágico, que faz todos os pedestres olharem para o céu, surpresos, receosos, maravilhados. A lembrança de Os pássaros, de Hitchcock, é inevitável.

Roma e suas contradições: o padre Tonino Lasconi, autor do livro La TV è buona (“A TV é boa”), declarou que “a televisão faz bem à alma, aproxima o homem de Deus”, recomendando aos fiéis assistir à TV para se aproximarem do Senhor. Logo depois, o Papa veio a público pedir aos fiéis que “desliguem a TV” devido às suas transmissões pornográficas e violentas. Causa também muita celeuma o novo anúncio da Benetton, no qual uma noviça belíssima beija na boca um jovem padre, igualmente belíssimo.

Há 14 Portas em Roma. E tudo, nessa cidade, leva uma cruz: não apenas as catedrais, igrejas e monumentos católicos, mas também os templos e edifícios – do Coliseu ao obelisco egípcio – que um dia foram pagãos. Foi Constantino, o Grande, o primeiro imperador católico, quem iniciou essa cristianização das pedras de Roma.

Chego ao Castelo de Sant’Angelo, onde há belíssimos afrescos nas salas, na biblioteca, nos quartos construídos em torno da tumba de Adriano. O quarto de Cagliostro está fechado, mas é possível ver as paredes decoradas da sala de banho. Sigo para a Vila Borghese e percorro todo o jardim: do Museu Borghese à Villa Giulia, da Piazza de Siena à Villa Medici. Fotografo os bustos vandalizados da Via dei Bambini: é como penetrar num terreno perigoso – o da dessacralização fascista. O mal impregna esse jardim.

Roma possui quatro catedrais: São João, São Pedro, São Paulo fora das Portas e Santa Maria Mayor. Esta, construída no século IV, possui uma Porta Santa que só abre a cada 25 anos. Nela está a tumba (bastante simples) de Bernini. Seguindo a forma retangular das igrejas da época, ela tem 40 colunas de diferentes templos antigos. O teto, do século XIV, é de madeira dourada. Uma das capelas foi projetada por Michelangelo. Alguns papas (como Clemente IX) foram aí enterrados – hoje todos devem ser enterrados no Vaticano.

Na Escalera Santa, a escada de mármore, de 28 degraus, que foi trazida de Jerusalém no ano de 326, por ordem de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, morta em 335. Por ele só pode ser subida de joelhos, uma vez que por ela – segundo a tradição – teria subido e descido Jesus Cristo para entrevistar-se com Pôncio Pilatos no dia de sua condenação à morte. Visito também a capela Sancta Sanctorum, que serviu aos papas medievais como oratório privado e arquivo secreto de preciosos documentos, e onde um famoso ícone aqueropita pode ser venerado.

Passo pelos muros de Aureliano, do século III; pelo palácio residencial dos papas; e pelo prédio onde se reuniu o Concílio de Latrão; chego, finalmente, à Basílica de São João de Latrão, que também possui uma Porta Santa. Passeio, depois, pelas Termas de Caracala, onde até 1.600 pessoas podiam banhar-se, e que hoje serve de palco magnífico para encenações operísticas.

Tomo a Via Appia, a mais importante estrada consular, construída por Claudius, e passo pela Igreja Quo Vadis – onde São Pedro teria cruzado com Jesus Cristo – que jamais esteve em Roma – e perguntado ao Senhor: “Quo Vadis Domini?”, chegando às Catacumbas de São Calixto, uma das maiores da cristandade, com 20 km de escavações: um verdadeiro labirinto de tumbas. Das 50 catacumbas conhecidas, apenas quatro podem ser visitadas. Nestas, há criptas de papas do século III, o túmulo de Santa Sicília, tumbas feitas com lava vulcânica. Ricos e pobres recebiam o mesmo tipo de cova, mas algumas tumbas são mais decoradas, com afrescos e lâmpadas a óleo. Como se respirava nesses corredores de terra sem ventilação e cheirando a corpos em decomposição?

Exposta no pórtico da Igreja S. Maria in Cosmedin, encontra-se a Bocca della Verità,um solar e faunesco rosto de pedra de 1,66 m de altura, ao qual a crendice popular atribuiu propriedade de morder a mãos dos mentirosos e dos adúlteros. Essa boca assusta, sobretudo, as meninas, que choram e se recusam a colocar suas mãos dentro do buraco horrível. Depois de traumatizá-las, os pais as tranqüilizam mostrando que nada pode acontecer-lhes: elas então criam coragem e enfiam a mão no buraco.

Sem mais bloqueios, as crianças agora introduzem as mãos não apenas na boca, como também nos olhos e no nariz do “monstro”, e voltam mais uma vez, sorrindo, para enfiar de novo as mãos na carantonha. O “monstro” não as assusta mais! Foi desmistificado pelo discurso racional e burguês de seus pais. Mesmo assim, a Boca aberta mantém seu simbolismo dos ritos de passagem. Ali testam seus desejos todos os casais, dos mais jovens aos mais velhos, dos mais fíéis aos mais cínicos: uma nostalgia do paganismo que sobrevive em camadas profundas das mentes italianas. E a Bocca della Verità é uma fissura misteriosa e sempre aberta entre o presente e o passado.

O jardim de Domenico Persiani

Il giardino di Domenico Persiani - 2

Domenico Persiani em seu jardim de cerâmica. Foto de Luiz Nazario.

Caminhando pela Piazza della Republica, entrando numa galeria que sai na Via Torino, encontro, no número 92, o Giardino di Domenico Persiani. É um espaço mágico, no centro do tráfego romano: vasos, máscaras, borboletas, esculturas, pilastras, fontes, bustos, os mais belos trabalhos de terracota e cerâmica empilhados num arranjo cuidadosamente descuidado. Muitos desses tesouros artesanais estão mergulhados em água, numa atmosfera de doce decadência. Domenico Persiani trabalha no canto esquerdo do jardim, numa pequena oficina, e recebe-me com as mãos sujas de barro. Estava ali, como sempre, produzindo suas maravilhas, destinadas aos poucos privilegiados que descobrem seu jardim, por acaso. Não posso comprar senão duas borboletas de cerâmica coloridas. Mas é o bastante para que me lembrem para sempre de Domenico, com suas mãos sujas, sorrindo timidamente em seu jardim de sonhos de barro, constantemente molhado de chuva, e banhado de sol.

Os azuis e rosas de Giulio Gorga

Giulio Gorga, um dos tantos artistas interessantes de Roma, expunha suas telas na galeria de arte La Borgogna, na Via del Corso. Ali reina a carismática Signora Giulia De Lipsis Granati, sob dois centauros de De Chirico – uma das belas aquarelas que enriquecem sua sala de diretora. Ela recebeu, em 1992, no Campidoglio, o prêmio Donna nella Cultura, por expor, desde 1963, mostras de artistas das vanguardas históricas européias, como De Pisis, De Chirico, Richter, Vasarely, Morandi, Dubuffet, Masson, Rotella, Picasso, Minguzzi e Jean Cocteau, que ainda são os nomes que contam para a arte contemporânea. Gorga segue essa tradição. Nascido em Roccagorga, em 1946, trabalha e vive desde 1966 na capital italiana. Aluno de Max Pfeiffer Watenphul, docente da Bauhaus, expôs suas obras na Alemanha, na Holanda, na França, na Iugoslávia e em diversas cidades italianas.

Giulio Gorga é um apaixonado pela cultura da Magna Grécia, e maturou sua pintura a partir de outra atividade à qual dedicou e continua a dedicar boa parte de seu tempo: a restauração de vasos gregos e etruscos. De Kiatos, Kilikes e Kantharos tomou a inspiração dos símbolos primordiais da humanidade, assim como das expressões sardônicas das cabeças de seus jovens de rosto anguloso, que lembram figuras de Modigliani. A arte de Gorga exprime, através de suas formas primitivas e de suas cores vibrantes, uma alegria vital, celebrando a vida com meios aparentemente simples, que pressupõem, contudo, uma profunda erudição de historiador da arte e técnico em restauro.

Gorga restaurou centenas de esculturas gregas. Impressionou-se com as cores vivas das pequenas estátuas de Tanagra, que eram bastante populares e por isso cultivavam uma beleza simples, próxima da vida. Foi dessas pequenas figuras coloridas que Gorga tirou o seu rosa e o seu azul, suas cores prediletas, e que procura aproximar ao máximo dos tons das peças arqueológicas. Gorga também reinterpretou os símbolos da iconografia antiga e redescobriu o primeiro signo com o qual os gregos primitivos designavam o homem. A partir desse símbolo, criou quadros codificados, onde o signo é, ao mesmo tempo, imagem e mensagem. Gorga explicou-me alguns dos significados expressos em suas telas: este é um homem agachado, agradecendo o dom da vida; aquele é um homem que segura uma arma, o protótipo do guerreiro; aquele outro, em contraposição, é o homem de gesto gracioso, que segura um ramo de folhas que pode significar a paz.

Além desses quadros inspirados na cultura grega primitiva, Giulio Gorga experimentou recriar naturezas mortas, retratos e outros temas da pintura clássica. Uma de suas inovações está na visão das coisas que pinta. Se o tradicional permanece nos retratos de seus amigos e conhecidos, que capturam uma expressão real, o enquadramento é quebrado quando a figura retratada é imaginária. Então, Gorga prefere uma perspectiva e um enquadramento mais agressivos, que restringem e limitam para o espectador curioso a visão daquilo que sonhou: cortando um pedaço da cabeça de seus efebos ou cobrindo parte da paisagem pintada com molduras estreitas, Gorga só nos deixa entrever o que sua imaginação trabalhou. Essa agressividade é um traço novo, e não podemos dizer que direção vai tomar: a arte de Giulio Gorga está em plena evolução. Seus quadros são cotados a uma média de dois milhões de liras – um vestido Escada ou um terno Armani custam mais. Mas quem compra um quadro de Gorga não segue a moda; investe num artista que renova nossa visão do mundo antigo, banhada na nostalgia da Magna Grécia, da alegria vital que era a essência mesma da existência terrena, num mundo que desconhecia todas as formas da poluição.

A ambígüa Guglielmina Otter

Entrando no belo Palazzo Ruspoli, na Piazza San Lorenzo in Lucina, em meio às salas lindamente afrescadas, descobri fotografias de grande força pictórica na mostra A ambigüidade posta em foco. Quis conhecer a artista: era Guglielmina Otter, que reunia trabalhos que ela desenvolveu nos últimos dez anos. A exposição estava dividida em três sessões: “Objetos e Fábulas”, com fotografias que recriavam mitologias a partir de bonecas, bolas, fitas e flores secas imersas em vidros, vasos e outros objetos cotidianos e arqueológicos, com forte sugestão erótica; “Poetas e Escritores”, que realizava um inventário fotográfico dos nomes mais expressivos da literatura italiana contemporânea, capturando de cada um a expressão mais expressiva, junto a poemas dos autores, dedicados à mostra; e “Três Aquarelas”, pinturas que seguiam o fio condutor da ambigüidade, que a artista valorizava, e que já prenunciavam sua próxima mostra, “O Res Mirabilis”, dedicada à pintura e às artes gráficas.

Guglielmina Otter explicou-me que a tiragem de suas fotografias é rigorosamente limitada a sete cópias, além de duas que permanecem com ela. Começou a fotografar há dez anos, mas foi nos últimos cinco que essa atividade tornou-se mais intensa em sua vida. Suas imagens possuem uma luminosidade rara e destacam-se da realidade por um gosto pelo maravilhoso, pelo simbólico, pelo mítico. Nada é claro nas imagens que cria, mesmo quando o branco-e-preto e o uso de bonecas parecem dar à cena um caráter infantil e didático. Na verdade, o que poderia ser uma mensagem esquemática é habilmente transfigurado pela presença constante dos reflexos, que tornam a obviedade impossível. Espelhos, vidros, cristais e outras superfícies lisas e brilhantes retiram o sentido claro das coisas e introduzem esse universo de ambigüidades que Guglielmina Otter celebra. Mesmo os símbolos sexuais tornam-se dúbios: uma imagem fálica feita com uma vela e três bolas deixa de ser uma imagem fálica ao evocar algo de mais monstruoso e surreal. A esse estranho erotismo das coisas Otter soma certa atração mórbida pelo úmido, fanado, encharcado ou ressequido, compondo “naturezas mortas”. Nesse sentido, considero sua fotografia Simulazione (“Simulações”), por sua cor, luz e mistério, sua obra-prima.

A sessão de A ambigüidade posta em foco que mais me tocou foi a dos retratos dos autores italianos de hoje, todos tirados em preto-e-branco, que Guglielmina Otter fez nos últimos nove meses, com luz natural ou mista, em momentos de espontaneidade, preferencialmente sem pose. Esta foi, segundo Guglielmina, uma aventura em que se lançou, pois não conhecia pessoalmente nenhum dos autores fotografados quando decidiu retratá-los. Cada encontro constituiu um momento mágico, o nascimento de uma amizade, e os escritores partilharam de sua aventura, respondendo com verdadeiro entusiasmo à requisição de um poema que acompanhasse a imagem, presenteando-a ora com uma página inédita, ora com um texto já editado mas que acreditavam combinar perfeitamente com aquele momento ou com a expressão de si mesmos. Até um simples verso inédito de Luigi Malerba, dedicado à mostra, assume o caráter de uma dádiva: “Não há ninguém disposto a não saber demais”. O poema de Giuseppe Conte, Foglia (“Folha”) também é um bom exemplo:

Você sabe o que é uma folha

Sabe de onde vem

Conhece as suas veias

escarpadas e estreladas?

Sabe que uma folha pode

assemelhar-se a uma mão

a um céu vago e distante

de onde chovem meteoros?

O poeta, fixado pelas lentes de Guglielmina Otter, mira-nos de frente, e seus olhos escuros, negros, parecem interrogar-nos com uma inquieta amargura: “Você sabe o que é uma folha?”, como que acabado de sair de uma experiência metafísica, de um mergulho prolongado na folha, percorrendo desde sua haste até suas nervuras, carregando agora segredos maravilhosos e horripilantes que nossa existência cotidiana, alienada, desconhece, pois costumamos passar, indiferentes, por cima das nuances e dos pressentimentos, da beleza e do horror insondáveis da natureza. Outra perfeita simbiose entre retrato e poema ocorre com Valentino Zeichen, com seus versos inéditos Esecuzione (“Execução”):

Repetidos gatilhos, flash,

rajadas que evocam

armas automáticas,

agonias abreviadas

e mortes instantâneas.

Disparam o clic

da arma fotográfica

e trata de permanecer morto

na imortalidade,

conservando intacta semelhança.

Como por acaso, Guglielmina Otter fotografou Valentino Zeichen como se o executasse: a parede diante da qual ele se encontra está coberta por uma tinta que respinga, como se manchada de sangue… Sua expressão é de séria atenção: como se esperasse, resignado, o próximo disparo da câmera assassina. Apenas mais um exemplo: Dacia Maraini comparece com um poema também inédito intitulado Le tue mani (“As tuas mãos”):

As tuas mãos de fantasma

macias e peludas

os teus olhos engolidos de sono

os teus cílios mais negros

que uma noite sem estrelas

os teus pés cavalares…

Vi-te entrar pela janela

numa manhã de tempestade

mas depois te perdi de vista.

Em que gaveta da memória

te escondeste

meu pequeno amor morto?

No retrato que dela fez Guglielmina Otter, eis que Dacia Maraini está mesmo olhando para o alto, à esquerda, como a lembrar-se de um Alberto Moravia de pés alados e cavalares, entrando por uma misteriosa janela do passado, para imediatamente fugir de vista, deixando uma terna saudade. Retratos de escritores e poetas por artistas da fotografia são sempre registros importantes, tanto para a história da fotografia quanto para a história da literatura. Conhecemos um pouco mais de Baudelaire ou de Balzac graças aos daguerreótipos de Nadar. Com sua galeria de poetas e escritores italianos, Guglielmina Otter contribui para a divulgação de uma literatura de grande riqueza e variedade, que ainda permanece – como a nossa – mal conhecida no resto do mundo.

Brasileiros vistos pelos italianos

Num artigo para a revista de cinema Lumière, o crítico Sergio Micheli, retomando dos críticos e cineastas brasileiros o surrado discurso da colonização americana, criticava a informatização do país e lamentava o fim da Embrafilme, decretado pelo presidente Fernando Collor como uma vingança contra os intelectuais e artistas de esquerda. Micheli responsabilizava o fracasso do filme Capitalismo selvagem pela adoção de uma estética de telenovela, mas também elogiava a obra de cineastas marginais, como Carlos Reichenbach, Ugo Giorgetti, João Silvério Trevisan, José Agrippino de Paula e Ozualdo Candeias, que permaneceram à margem do cinema oficial da Embrafilme.

Como era de se esperar, o crítico italiano grafava muitos nomes de forma incorreta. Candeias transformou-se em “Candejas”; José Carlos Avellar foi chamado de “José Carlos Avellon”. Surgiu um ignoto “Mjrinho Barbosa” e até o famoso poeta alemão Schiller foi citado como “Shiller”. Va bene! O que me chocava na visão do crítico italiano não era sua desatenção aos nomes, mas a preferência que ele dava ao cinema de José Mojica Marins, destacado num artigo à parte. Zé do Caixão ou, em italiano, “José della bara”, era apresentado como um fenômeno de produtividade, com seus 129 filmes de longa-metragem e seus nove curtas-metragens. Essa quantidade de filmes seria um exemplo de “independência e sucesso”.

Micheli citava, entre outros, A meianotte levarei su alma (sic), numa deliciosa mistura de italiano, espanhol e português. Considerava estimulante a idéia de Mojica de que, no futuro, a Terra seria governada pelos marcianos, com alto desenvolvimento tecnológico. O cineasta de capa preta e unhas longas, amante do horrendo e do nojento, foi paradoxalmente apresentado como “um homem que colheu da existência o que de melhor esta poderia oferecer-lhe: para adquirir experiências, para gozar do que o prazer e o belo na natureza podiam dar-lhe. Casou sete vezes e tem 23 filhos”. Minha idéia de prazer é outra!

A Revista dei Libri também apresentou, em junho de 1995, uma entrevista de Marco Lodi Rizzini com outro brasileiro bem-sucedido: Jorge Amado. O escritor é apresentado como um jovial senhor de 83 anos, que há mais de vinte anos recolhe-se no Estoril para escrever, preparando há dez anos o romance Boris, o vermelho. Para ir à Europa, Amado viajou doze dias em navio, por medo de voar. Passou três meses na Europa recolhendo prêmios e honrarias: o Camões, o Brancati, a Láurea Honoris Causa em Pádova, sempre acompanhado por Zélia Gattai, filha de anarquistas italianos (o pai, Ernesto, florentino, foi assassinado pela polícia do Paraná). Amado diz que escreve seus livros no Hotel Atlântico, no Estoril, ou em Paris, na mansarda da Avenue des Célestins. Na Bahia, os amigos roubam-lhe todo o tempo. Só consegue escrever artigos quando está no Brasil. Em 62 anos de atividade literária, teve 32 de seus livros traduzidos em 42 línguas.

Roma é uma orgia cultural perpétua

A Via Marguta é a rua mais cinematográfica de Roma: no número 113-110 moraram Fellini e Giulietta Massina, e hoje uma placa os recorda; na mesma rua, Gregory Peck encontrou Audrey Hapburn em A princesa e o plebeu; e Mario Camerini dedicou a essa rua o filme Via Marguta. Ali, num café, tenho um encontro cinematográfico: um jovem pintor chamado Felice Giordano aproxima-se de mim e declara-me seguir a tradição de Michelangelo, demorando meses, até anos, para finalizar uma pintura. Prometeu-me enviar um quadrinho. Enviou-me, de fato, depois de dois anos, um desenho mal feito, em estilo egípcio. E pediu-me, em troca, revistas sobre alienígenas!

Há maravilhosas exposições em Roma, e me esforço para não perder nenhuma:

Dio nell’uomo: as obras do pintor fascista Mario Sironi.

Riscoprire Pompei: sobre os últimos progressos das eternas escavações de Pompéia

I luoghi del consenso: mármores provenientes dos Foros de Nerva e de Trajano expostos nos ambientes esplêndidos dos Mercados Trajanos.

Ebla: alle origini della civilità urbana: tesouros da cidade-símbolo da antiga Síria, um dos mais sensacionais achados arqueólogos de todos os tempos, feito por estudiosos italianos há 30 anos.

I Fiaminghi a Roma, no Palazzo delle Esposizioni, com 221 obras de artistas flamengos realizadas em Roma entre 1508 e 1608.

Toros y Toreros, na Sala del Bramante, na Piazza del Popolo, com uma seleção de obras de Goya, Picasso e Dalí sobre a taurimaquia.

Lisippo, l’arte e la fortuna: reunindo cerca de 250 obras que se relacionam ao escultor grego Lisippo (esculturas, pinturas, cerâmicas, gemas, moedas, terracotas) de museus italianos e estrangeiros.

Caravaggio e la collezione Mattei: pela primeira vez são expostos os Caravaggio da coleção Mattei, na Galleria Nazionale d’Arte Antica, no Palazzo Barberini, na Via Qattro Fantane; aqui, tudo é  motivo de admiração: não apenas as obras, como a via onde se encontra o palácio e a própria sala do palácio, com seu belo teto afrescado.

Visito ainda o Museu do Campidoglio, onde – lá no fundo – encontra-se o São João Batista de Caravaggio; os Museus e Claustro da Basílica Lateranense; o Museu Keats e Shelley na Praça de Espanha, com os móveis e livros de Keats, que morou ali nos últimos anos de sua vida, e morreu num quarto cuja janela dá para a Praça.

Inúmeros novos livros sobre Fellini têm sido publicados na Itália. A Editora Laterza lançou o belíssimo álbum I disegni di Fellini, de Pier Marco De Santi; a Rizzoli contra-atacou com um álbum ainda mais luxuoso, Federico Fellini, organizado por Lietta Tornabuoni, com ensaios críticos e inéditos do cineasta. E se eu tivesse feito meu doutorado aqui e não na Alemanha? Ah, quantas belas amizades eu não teria hoje? Fui infeliz na Alemanha. É na Itália que estão minhas raízes.

Retorno à Piazza Navonna. Observo agora como a cultura de massa dominante está estragando essa que é a praça mais bela de Roma, e talvez a mais bela do mundo. Garotos musculosos e tatuados tiram suas camisetas para atrair garotas abobadas, que deixam que eles façam trancinhas em seus cabelos. Um idiota com revólver de plástico espirra água na cara delas…

Visito a impressionante tumba de Santo Ignacio, toda de mármore, uma das grandes obras do barroco, desenhada pelo artista jesuíta Andrés del Pozzo. Foi talhada entre 1695 e 1700, na Chiesa del Gesú, com estátua em gesso recoberto de prata e cravejado de pedras preciosas. Seu corpo repousa embaixo, na tumba. Colunas e nicho em lápis-lazúli, alabastro e mármore, ônix, ametista, cristal de rocha e bronze dourado.

Vou a Tivoli, à Villa d’Este, à Villa Gregoriana, à Vila Adriana, a Ostia Antica. Visito a Igreja San Paolo. Os gatos estão em toda parte, e não parecem abandonados: essa população felina deve ser alimentada pelos romanos diariamente, pois parecem em casa entre as ruínas, ornando cada monumento, à vontade em qualquer cantinho de Roma.

Festa da Música. Projeção de St. Louis Blues (1927), com Bessie Smith, ao ar livre, na Praça do Campidoglio. Mas o melhor ocorreria mais tarde, precisamente à meia-noite: um deslumbrante concerto de Fuochi Barocchi (“FogosBarrocos”) na Praça Cervantes, no Valle Giulia. Que genial espetáculo criado por Oreste Albarano! Nunca vi nada igual. Trata-se de um folguedo barroco, de uma distração aristocrática. Os fogos de artifício são preparados para explodir segundo o ritmo de um concerto barroco. Quando a música começa, as farândolas começam a girar, e outros fogos se sucedem num crescendo, em todas as cores e formas delicadas, até a apoteose final. O esplendor desses Fuochi Barocchi só encontra paralelo nos filmes de animação de Norman McLaren.

Experimento fazer a excursão “Castelos Romanos”, cujo roteiro inclui a Via Appia Antiqua, a Capela Domine Quo Vadis, Castelgandolfo, Rocca di Papa, Grottaferrata e Frascati. Os turistas não têm tempo de apreciar nada. As excursões de um dia, na Itália, são uma perda de tempo. Decido visitar por minha conta a Catacumba de São Sebastião: tomo na Stazione Termini o ônibus 714 até San Giovanni in Laterano. Depois, o nº 218 até a Via Appia. Sigo ainda um trecho a pé, na estreita e perigosa estradinha dominada pelos veículos. Mas vale o esforço. É um labirinto escuro e misterioso, uma magnífica catacumba com túmulos bem conservados.

Antes de voltar ao Brasil, telefono a Dacia Maraini para me despedir e registro nossa pequena entrevista:

Nos últimos anos você se tornou um dos autores mais importantes da Itália. Seus livros alcançaram uma audiência mundial, traduzidos para os principais idiomas. Qual o seu segredo?

Dacia Maraini: Trabalho muito. Agora mesmo comecei um novo romance. Fiquei muito contente com o resultado de Voci. O livro encontrou boa acolhida do público e recebeu uma espécie de prêmio da crítica na Itália, uma menção importante para a carreira do livro. Escrevi também uma peça chamada Camille, baseada na personagem do filme Camille Claudel. E você, que tem feito? Como faz para viajar tanto?

Bolsas de estudo, economias que dilapido, um pouco de sorte… Agora, por exemplo, estou hospedado no apartamento do amigo da irmã de uma amiga…

Dacia Maraini: E que tem escrito?

Escrevi uma longa tese sobre o cinema nazista e aguardo uma vaga na Universidade. Escrevo muito. Mas os livros que escrevo não são publicados.

Dacia Maraini: Que pena! Aqui também é difícil pertencer aos quadros universitários, deve-se esperar muito tempo até que se abra uma vaga… Mas o tema de sua tese é tão interessante! Você deve conhecer o livro Come si diventa nazista.

Não. De que trata?

Dacia Maraini: É um estudo extraordinário. O autor mostra como o cotidiano de uma pequena cidade da Alemanha se transforma pouco a pouco e como seus habitantes viram nazistas. É perturbador.

Vou procurá-lo. A propósito, como vê o neofascismo ressurgindo na Itália? Encontrei suásticas estampadas nos muros, em diversas cidades.

Dacia Maraini: Sim, é um momento difícil para nós assistir ao crescimento de todas essas forças de direita. Agora mesmo os Juízes de Mãos Limpas estão sendo perseguidos por terem comprometido os poderosos.

Mas o próprio movimento Mãos Limpas parece-me tão carregado de moralismo fascista!

Dacia Maraini: Bem… O moralismo é sempre inquietante, mas no caso de Mãos Limpas, se existe esse perigo, era também necessário combater uma situação insustentável. Não creio que seja um movimento de direita. Foi um movimento justo, importante e corajoso. Quanto ao neonazismo, é algo que deve ser levado a sério, porque embora os membros desse movimento constituam uma minoria, trata-se de uma minoria ameaçadora e violenta.

Falamos, em seguida, é claro, de Pasolini, mas essa parte da entrevista eu já publiquei no meu livro Todos os corpos de Pasolini.

Pamela Villoresi e Dacia Maraini. Foto de Luiz Nazario.

A atriz Pamela Villoresi e a escritora Dacia Maraini no camarim do Teatro Argentina. Foto de Luiz Nazario.

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