AS FALSAS ACUSAÇÕES

Execuções públicas de homossexuais e outros "precadores criminosos" no Irã

Execuções públicas de homossexuais e outros “pecadores criminosos” no Irã

A homofobia (que cresce em todo o mundo) é um sintoma bem visível dos movimentos que combatem, em todas as frentes, as liberdades individuais para a instauração de regimes totalitários. A 16 de abril de 2012, por exemplo, numa convenção de clérigos islâmicos na cidade iraniana de Qom, o veterano aiatolá Abdollah Javadi-Amoli denunciou que nós, ocidentais, somos inferiores a animais porque nossos parlamentos legalizavam os direitos dos homossexuais, algo de terrível porque esses pecadores trariam a AIDS para a sociedade humana como punição divina. E como, segundo o Corão, “os homossexuais são inferiores aos animais”, aqueles que os apoiam também o seriam:

Lot disse a seu povo: ‘Vocês cometeram pecados inéditos na história do mundo e no reino animal, no reino do demônio e no reino humano’. Nem pássaros, predadores, cães e porcos cometeram tais atos. De acordo com o Corão os que aprovam tais atos em seus parlamentos são inferiores a animais. […] O Corão diz que [os homossexuais] são inferiores aos animais. O Corão, as tradições e as proibições religiosas é o que nos faz humanos. É verdade que não estamos como o Ocidente em termos de [progresso] industrial. Mas enquanto eles são mais avançados [nesse campo], em termos de [sexualidade] eles são bárbaros. Segundo o Corro, suas vidas são mais baixas que as dos animais. Nem cães e porcos cometem o ato infame (sodomia) que eles querem legalizar em seus parlamentos. [Trad. MEMRI Report 4708].

No Irã, onde se fez a Revolução Islâmica, coerentemente se voltou a punir com a morte as práticas homossexuais. Um site iraniano chegou a pregar que os homossexuais deveriam, sempre de acordo com o Corão, ser queimados vivos ou atirados do alto de uma montanha. O regime iraniano tem preferido, contudo, talvez por razões práticas ligadas à modernidade, que eles fingem rejeitar, o enforcamento, de preferência em vistosos guindastes. Assim, entre centenas de pessoas enforcadas mensalmente naquele país, três o foram em setembro de 2011 em  Ahwaz por sodomia. E isso a despeito de Mahmoud Ahmadinejad, que prepara desde 2010 um baby bom no país, recomendando às  meninas iranianas que se casem aos dezesseis anos, nos garantir em 2007, na Columbia University, em Nova York, a inexistência de homossexuais no Irã, sendo esse um problema exclusivamente ocidental. Só não explicou como o Irã obtivera a tão sonhada por todos os fascistas solução final dos homossexuais.

Mas ao contrário do que os radicais islâmicos imaginam, a “limpeza étnica” dos homossexuais ordenada pelo Corão, e que voltou a ser praticada no Irã e em outros países islâmicos, não é uma solução nova, mas possui longa tradição no Ocidente, que é bárbaro pelos padrões islâmicos apenas nas ilhas de liberdade onde a democracia vingou e o Estado laico conseguiu reprimir suas próprias barbáries religiosas e políticas, separando a Igreja do Estado, banindo a Inquisição, que queimava vivos judeus, feiticeiras e homossexuais (quando constatava um coito completo); e vencendo o Nazifascismo, que os castrava e prendia em campos de concentração (como tantas outras vítimas étnicas e políticas). Muitos são os ocidentais, contudo, que tampouco querem ser “bárbaros” e “menos que animais” através do retorno aos tempos da Inquisição e do Nazifascismo.

Na Itália, por exemplo, Giancarlo Gentilini, vice-prefeito de Treviso, reagiu recentemente à denúncia de práticas homossexuais cometidas em certo local público da cidade pregando a “limpeza étnica para os culattone”. O termo culattone que caíra em desuso após o Nazifascismo, quando era usado em referência aos prisioneiros estigmatizados com o triângulo rosa nos campos de concentração, voltou assim à linguagem cotidiana na Itália. O sonho de Gentilini, eleito pela neofascista Lega Nord de Umberto Bossi, seria deportar (ou exterminar) os aproximados 150 mil homossexuais da região de Veneto, como bem observou Bepp Grillo.

No Brasil, temos um correlato nas declarações homofóbicas do deputado Jair Bolsonaro (do Partido Progressista), em suas companhas contra os direitos civis dos homossexuais; do filósofo Olavo de Carvalho (em aulas proferidas na linguagem mais indecente que se possa imaginar, seguidas por milhares de fãs no YouTube); de pastores evangélicos (que retiram demônios dos corpos dos gays convertidos que os procuram, em vídeos obscenos postados no YouTube); e de tantos outros fundamentalistas cristãos e neofascistas que não querem ser “bárbaros” como os democratas e liberais tolerantes com a homossexualidade, por medo da liberdade que temem como o demônio, por supostamente levar ao comunismo (o fascismo como  “defesa da liberdade”) e, mais concretamente, à confrontação com suas próprias fantasias homossexuais reprimidas.

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