PASOLINI ABJURARIA ‘SALÒ’

No Brasil, as manifestações político-partidárias contra a sub-reptícia censura de A Serbian Film evitaram abordar as questões essenciais. Para impedir o novo tipo de censura que emergiu com a provocação fascista que o filme contém em sua propaganda da irresponsabilidade humana diante da barbárie, seria preciso acabar com as Leis de Incentivo à Cultura, reformular o art. 241-C do Estatuto do Menor e do Adolescente e suprimir a Classificação Etária instituída pelo governo Lula, os três instrumentos que permitiram o veto ao filmezinho sórdido no Brasil “sem Censura”.

Contudo, num mundo onde o sadomasoquismo se globalizou não é mais ousadia nenhuma, da parte de um cineasta, realizar um filme mostrando o estupro de mulheres, bebês e crianças com requintes de crueldade, cortar línguas e furar olhos, arrancar o couro cabeludo, explodir cabeças, cortar pênis, empalar e torturar por horas a fio, etc. Uma nova geração nasceu e cresceu “curtindo” esse tipo de espetáculo. O cinema extremista era subversivo em 1975, quando Pier Paolo Pasolini realizou Salò, com fascistas promovendo orgias sangrentas e banquetes de fezes com adolescentes.

Mas o espírito transgressivo da representação explícita da violência moral, dentro de determinado contexto ideológico – seguido por Bernardo Bertolucci em Novecento (1900, 1976), onde um fascista arrebenta a cabeça de um bebê lançando-o contra a parede, cena à época cortada no Brasil – foi pouco a pouco banalizado e despolitizado, até se tornar mais um item de consumo para os nichos sadomasoquistas do mercado. Se vivesse hoje, Pasolini abjuraria seu filme extremista. O consumismo das imagens degradantes que Salò gerou por imitação superou a imaginação. Se Salò foi proibido em todo o mundo, hoje o DVD do filme pode ser encontrado em qualquer caçamba de supermercado. A escalada da violência de massa segue seu ritmo enfadonho no cinema gore pornográfico, que tornou o horror ‘excitante’, ‘chocante’ e ‘divertido’.

As massas não podem mais viver sem sua cota de excitantes imagens degradantes. E pobre do desavisado mais sensível que se constranger com o lixo despejado nas salas de cinema, nas TVs a cabo, na Internet, no celular! Todos precisam ser abalados, perturbados, degradados, vendo os maiores horrores e se divertindo com isso. Uma geração imberbe que nunca se rebelou contra a censura a milhares de filmes de arte cortados  ou suprimidos nas TVs abertas pode se revoltar imediatamente contra a censura de uma porcaria numa sala de cinema de arte frequentada basicamente pelas elites. Confundem lixo com arte e, na dúvida, é melhor consumir tudo. Como em Salò, aliás…

A campanha carapintada pela liberação de A Servian Film teria meu apoio se partisse de uma visão de mundo humanista. Infelizmente, o novo discurso militante é movido pelo mais torpe espírito consumista, e politicamente oportunista. A Caixa Econômica Federal agiu com o direito que lhe dá seu papel de produtora, sendo que as Leis de Incentivo nunca foram contestadas pelos carapintadas. Os moralistas do Partido dos Democratas (DEM) agiram com o direito que lhe dá o Estatuto da Criança e do Adolescente, cuja aprovação nunca foi contestada pelos carapintadas. E o Ministro da Justiça usou a artimanha da Classificação Etária, que não revoltou nenhum carapintada, pois implantada pelo popularíssimo governo Lula.

A elite carapintada sentiu-se tolhida na sua diversão sadomasoquista na salinha de arte que frequentava e se enfureceu, sobretudo, porque as ações de veto de exibição e apreensão de cópia partiram do DEM, o partido da odiosa direita, que simboliza para a elite esquerdista todo o mal do mundo. A elite esquerdista esquece-se de que a massa da população é tolhida diariamente pelas TVs, que censuram todo o cinema. E pelos instrumentos citados que permitem legalmente ao  governo de esquerda censurar os filmes que não agradam aos moralistas de plantão, seus aliados no poder, tenham eles ou não razão de se revoltarem, à maneira dos carapintadas.

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