‘SALÒ’ POR FABIAN

Casamento de um fascista em 'Saló' (1975).  Imagem de © Fabian Cevallos/Sygma/Corbis.

Casamento de um fascista em ‘Saló’ (1975). Imagem de © Fabian Cevallos/Sygma/Corbis.

SALÒ: MISTERO, CRUDELTÀ E FOLLIA. Pasolini: Una testimonianza fotografica di Fabian. Roma: L’Erma di Bretschneider, 2005, 31p. ISBN: 88-8265-352-8.

Fabian Cevallos iniciou sua carreira como ator, atuando em Sierra Maestra, de Ansano Giannarelli, no papel de um fotógrafo de guerra. O personagem o marcou tanto que decidiu abraçar a carreira de fotógrafo. Por um golpe de sorte, foi convidado por Luchino Visconti para tirar três ou quatro fotografias do set de Ludwig. Mais tarde, trabalhando com o assessor de imprensa Simon Mizrahi, este tentou convencer Pasolini a deixar Fabian fotografar o set de Salò. Mas Pasolini não queria fotógrafos perturbando as filmagens de um filme “tão complicado”.

Certa tarde, rondando pela Cinecittà, Fabian encontrou Federico Fellini, que o apresentou a Pasolini, que já terminava de rodar Salò. Pasolini simpatizou com Fabian e deixou que ele fotografasse os últimos dias das filmagens. Foram nove dias em que o fotógrafo registrou as imagens do inferno nas últimas cenas rodadas do filme: as cruéis, insuportáveis, torturas realizadas no pátio da villa dos fascistas, dentro do Ciclo do Sangue.

No primeiro dia, Fabian não conseguiu fotografar nada, estarrecido com a encenação, que lhe recordava as torturas das ditaduras da América do Sul, de onde ele vinha. Depois, silenciosamente, com a máquina fotográfica na mão, para não perturbar as filmagens, que se desenrolavam como uma cerimônia, ele registrou inclusive a cena terrível onde uma mulher recebe choques numa espécie de cadeira elétrica, sendo em seguida sodomizada pelos rapazes fascistas, cena que desapareceu, como outras do filme, devido ao roubo de alguns rolos da película do laboratório onde estavam sendo reveladas.

Pasolini não pode conversar com Fabian durante as filmagens, mas prometeu encontrar-se com ele depois que o trabalho tivesse terminado, para ver as fotos e escolher algumas para a divulgação. Mas Pasolini foi assassinado antes disso. Fabian o soube através dos jornais. E estes, ao saberem de suas fotos, quiseram imediatamente comprá-las. Fabian recusou. Sentia que seria uma traição ao filme, um desrespeito a Pasolini.

Por trinta anos Fabian manteve suas fotos do set de Salò guardadas no seu arquivo particular. Lembrou-se novamente delas no caso das fotografias das torturas na guerra do Iraque e também durante o massacre dos escolares de Breslan na guerra da Chechênia. Nas homenagens feitas a Pasolini nos trinta anos de sua morte, Fabian sentiu ser aquele o momento certo de divulgar aquelas fotos, inéditas, de um tempo já quase esquecido.

No laboratório em que as revelava, um espanhol, ao ver a imagem do casamento de Salò, perguntou-lhe então: – É um casamento homossexual? Fabian explicou ao rapaz, ignorante de tudo, que era um filme de Pasolini. O espanhol exaltou-se: – Mas isso é simbólico, eu compro, eu compro, poderia ser a melhor imagem para a campanha [a favor do casamento gay] que estamos fazendo na Espanha. Mais uma vez Fabian teve de recusar, preservando a memória de Pasolini do horrendo consumismo contemporâneo.

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1 Comentário

Filed under NOTA DE RODAPÉ

One response to “‘SALÒ’ POR FABIAN

  1. olá
    por favor, teria algum contato de Fabian cevallos?

    grata

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