A ‘BURRENSIA’ BRASILEIRA CONTRA PASOLINI

Pasolini, nos anos de 1940, jogando futebol com seus amigos.

Em doentio anticomunismo requentado da Guerra Fria, os autores do blog Gays de Direita lançaram sobre Pasolini uma série de mentiras, distorções e calúnias para facilitar o trabalho de apresentá-lo aos ignorantes dos Trópicos  como um “comunista patético caído no ostracismo”, com “tentativas de resgate da figura desrespeitada na cultura italiana, mesmo entre os comunistas, feitas por acadêmicos brasileiros e pelo Telecine Cult”. De tão grotesco, o patético artigo não merecia comentários, mas o respeito aos mortos e aos estrangeiros nos obriga a corrigir as distorções realizadas pela burrensia brasileira.

Primeira distorção: “Pedófilo da pior categoria, alternava suas atividades de escritor, poeta, critico político e pseudocineasta com relacionamentos mantidos com menores de idade que seduzia nas periferias de Roma.”.

Os Gays de Direita acreditam existir pedófilos da pior categoria. Logo acreditam haver pedófilos da melhor categoria. Que pedófilos da melhor categoria seriam esses? Pedófilos de Direita! Talvez os sacerdotes pedófilos sejam também considerados respeitáveis pelos Gays de Direita. Mas a distorção não se limita a isso. A própria noção de pedofilia é distorcida. Pedofilia consiste em desejar bebês e crianças e abusar sexualmente dessas vítimas indefesas. Os menores que atraíam Pasolini não eram bebês nem crianças. Eram adolescentes na força da idade, sexualmente ativos. Pasolini foi iniciado aos vinte e um anos por dois adolescentes do campo, mais jovens que ele, que praticamente o violentaram. Seu desejo sexual fixou-se nos adolescentes populares e vigorosos, que procuravam homens mais velhos para satisfazer sua sexualidade exacerbada e ao mesmo tempo ganhar deles favores, para depois se voltarem para suas namoradas com as quais se casavam e tinham filhos.

Segunda distorção: “Pasolini iniciou sua carreira, como todo comunista italiano na época, criticando o regime fascista de Benito Mussolini, em especial, condenando a adoção do novo idioma italiano que colocou um fim nas diferenças entre os diversos dialetos falados em diversas regiões do país até aquela época.”.

Não foi Mussolini quem adotou o “novo idioma italiano”. O que Mussolini fez foi apenas proibir o uso dos dialetos. Pasolini condenava o regime fascista também por essa proibição. Como estudioso das linguagens, o escritor amava os dialetos. E por isso dava aulas, escrevia e publicava, sob o fascismo, poemas em dialeto friulano. Era um ato de desafio ao pai fascista e de coragem diante do poder fascista. Não de subserviência como o da maioria dos artistas e intelectuais italianos, que aderiam então com maior ou menor entusiasmo ao regime de Mussolini.

Terceira distorção: “Influenciado por Freud e Marx, começou a carreira como poeta e não demorou a se tornar romancista, sempre recheando suas obras com elementos de incesto e pedofilia, marca evidente em todas as suas obras a tal ponto colossal que seria impossível listar aqui todas elas, mas cita-se aqui um exemplo, trecho do poema intitulado “identificação do incesto com a realidade”, extraído do livro Teorema: “[…] Fizeste-me encontrar a justa solução (e abençoada) para a minha alma e para o meu sexo”. A presença milagrosa do teu corpo (que convém um espírito grande demais) De jovem macho e de pai. Dissolveu o meu selvagem e perigoso Medo de menina… […]” (PASOLINI, 1968).

Incesto e pedofilia não são marcas da obra de Pasolini. O único incesto notável na obra de Pasolini encontra-se em sua adptação de Édipo rei, de Sófocles. Seu próprio edipianismo está longe de ser incestuoso, uma vez que não sentia desejo por um corpo de mulher. Quase não há crianças em seus romances e filmes. Pasolini amava jovens rapazes com pênis grandes e rijos, jamais fez ou faria sexo com bebês e crianças. Os Gays de Direita tomam metáforas por realidades, confundem os personagens de um romance com o autor das personagens. Isso é primário e burro.

Quarta distorção: “Pasolini acabou aderindo ao esforço iniciado por Mussolini e passou a escrever suas obras com a gramática italiana que se conhece ainda hoje, abandonando o bairrismo de Bologna, cidade onde nasceu.”.

Pasolini sempre escreveu em italiano e nunca deixou de fazê-lo. Apenas publicou seus primeiros livros de poemas em friulano. Mas esse dialeto não era um “bairrismo de Bolonha”, como acreditam os Gays de Direita, era o dialeto da região do Friuli, terra natal da mãe de Pasolini.

Quinta distorção: “No cinema, produziu filmes com uma técnica de filmagem extremamente rudimentar, senão amadora; era comum gravar uma cena e, em seguida, partir para a produção da próxima sem revisar o conteúdo filmado. Embora seus fãs remanescentes, sobretudo na Unicamp, busquem ainda qualificá-lo como um ‘gênio’ comparável a Vittorio De Sica ou Luchino Visconti, a qualidade de seus filmes é tão pobre que a maioria dos críticos de cinema, incluindo Rubens Edwald Filho, nem o consideram cineasta.”.

A genialidade de Pasolini nunca esteve no domínio das técnicas cinematográficas, mas no universo único que ele conseguiu criar no cinema sem uso de alta tecnologia. Ele estava muito mais interessado nas linguagens que nas técnicas, e não entender que no cinema cabem e convivem muitos cinemas é passar mais um atestado de burrice. O persistente e apaixonado, mas simplificador e limitado crítico de cinema brasileiro Rubens Ewald Filho parece ser o filtro máximo dos Gays de Direita para o entendimento do que vem a ser cinema.

Sexta distorção: “A investida mais lamentável deste homem destinado ao fracasso foi a de (tentar) se tornar um intelectual, senão filósofo, por meio de suas produções ‘artísticas’”.

Os Gays de Direita desconhecem a vasta produção teórica de Pasolini, pela qual é reconhecido em todo o mundo como um dos mais brilhantes intelectuais italianos do século XX. O escritor e cineasta nunca foi um fracasso. Começou sua carreira pobre, dando aulas particulares, andando de ônibus e morando em favela. Mas sabia que seu destino era maior, porque ao contrário de todos à sua volta, ele pensava. Seu grande intelecto levou-o ao sucesso. Com o bom dinheiro que lhe rendiam seus livros e, depois, seus filmes, ele comprou carros de luxo, pois amava exibir-se para os rapazes, e, no fim da vida, uma torre medieval, aonde se recolhia para criar. Seu projeto de vida foi bem sucedido sob todos os pontos de vista.

Sétima distorção: “Em sua tentativa patética de denegrir o capitalismo, Pasolini parece ter feito um filme [Salò] sobre o que era, na realidade, o sistema soviético. Lá, sim, mulheres procuravam saciar sexualmente os dirigentes do Partido Comunista para conseguir alguma mísera promoção. Os que atendiam às ordens enviadas às linhas de produção nunca recebiam nada senão uma morada patética construída pelo Estado, e um ‘pouco mais’ para comer. Em Cuba, por exemplo, é comum a população comer apenas um prato de arroz com uma banana, duas refeições por dia, um dia após o outro durante meses. Nas ditaduras comunistas, quem determina a vida e a morte das pessoas são os senhores dentro de seus palácios, com várias regalias negadas ao próprio povo.”.

Pasolini fez um filme sobre o que conheceu muito bem: a República fascista de Salò, instalada no norte da Itália pelas SS nazistas. Os Gays de Direita só conhecem o capitalismo frufru do consumo hedonista, das boates gays e das patricinhas & mauricinhos. Eles concentram todo o mal no sórdido comunismo, como se esse fosse o único regime totalitário de horror existente no mundo. Eles ignoram (ou amam secretamente) o capitalismo totalitário do nazifascismo, que Pasolini, em seu filme, aproximou profeticamente ao do consumismo impiedoso de hoje. Como observou Walter Siti, Mao Tsé-Tung e Fidel Castro jamais fizeram parte dos heróis de Pasolini (SITI, Un  Oeil en plus, Europe, n. 947, Pasolini, mar.  2008, p. 16). Eu acrescentaria: nem Lenine, nem Stalin, nem Trostki. Os heróis de Pasolini eram Marx e Gramsci. Perdeu tambem depois a fé em Gramsci. Se vivesse hoje talvez nem se definisse mais como um intelectual marxista. Mas continuaria escandalizando.

[Neste ponto, os Gays de Direita passam a discorrer sobre as relações do PT com o Movimento Gay, que com suas bandeiras escandalizariam a sociedade “como num circo de horrores”. Os Gays de Direita devem odiar ser gays, se é que o são, pois suas bandeiras são as do anticomunismo. Leram apenas o livro de Maria Betânia Amoroso, e Pasolini é “analisado” através da leitura dessa única especialista, como um pretexto. No final, retomam o suposto tema, em novas distorções.]

Oitava distorção: “Pino Pelosi confessou ter sido o autor do assassinato, sendo depois constatada pela polícia italiana, através de um interrogatório, a motivação do crime ser o de ciúmes. Pelosi, um garoto de 17 anos, tinha sido um dos namorados de Pasolini, então com 53 anos, e sentiu ciúmes quando se viu trocado por outro garoto. Tendo descoberto depois que troca rápida de amantes jovens era um costume de Pasolini, este ficou com raiva e decidiu se vingar. Punido pela sua lábia experiente de predador pedófilo, Pasolini foi agredido até a morte, com ossos quebrados e crânio esmagado, tendo seu corpo abandonado num campinho de futebol na periferia romana, região onde não apenas obtinha seus amantes, mas também recrutava os pobres para utilizar nos seus filmes. O jovem agressor recebeu uma pena de nove anos e meio de prisão, uma barganha por fazer ao mundo tal grande favor.”.

Pino Pelosi fez uma série de confissões contraditórias, que levaram recentemente à reabertura do processo. Num primeiro momento, declarou ter sido o único assassino. Mais tarde, declarou que não fora o único assassino. Há poucos anos voltou às mídias para esclarecer que ele não fora absolutamente o assassino: Pasolini teria sido assassinado por outros homens, mafiosos sicilianos, que o obrigaram a calar-se e assumir o crime sob a pena de ter os pais assassinados. Pelosi nunca diz a verdade e jamais foi “namorado” de Pasolini, que “caçava” rapazes pela aparência, sem conhecê-los. E se assassinar poetas é um “grande favor” que criminosos e fascistas prestam ao mundo, os Gays de Direita nem precisam mais revelar a simpatia que sentem pelos que definem as vidas “indignas de serem vividas” (Himmler).

Nona distorção: “Em 1970, cinco anos antes de sua morte, o solitário pseudocineasta tinha sido expulso do Partido Comunista Italiano, não por ser pedófilo ou por produzir filmes e livros moralmente degradantes e pornográficos, mas por ser homossexual. Se naquela época a morte de uma pessoa como ele era atribuída a um “crime da CIA”, nos dias de hoje seu nome iria parar nas listas de mortes das ONGs por aí existentes como sendo de ‘crime de homofobia’.”.

De fato, os comunistas expulsaram Pasolini de suas fileiras. Mas não em 1970. Pasolini foi expulso em 1949, pela federação do Partido Comunista Italiano (PCI) em Pordenone, segundo notícia publicada no jornal L’Unità daquele ano, “por indignidade moral”. Os comunistas expulsaram Pasolini de suas fileiras atribuindo sua homossexualidade “às deletérias influências de determinadas correntes ideológicas e filosóficas: como a dos Gide, Sartre e demais celebrados poetas e literatos, tomadas por progressistas quando, na realidade, adotam os aspectos mais deletérios da degeneração burguesa” (L’Unità a 29 de outubro de 1949).

Alguns biógrafos apresentaram uma versão fantasiosa do episódio, segundo a qual o rapaz “seduzido” por Pasolini teria confessado a um padre os “pecados” que teria sido induzido a cometer: violando o juramento de segredo do confessionário, o padre teria denunciado Pasolini e o exposto à sanha da imprensa local. Cheguei a adotar essa versão neocomunista, que deve ter sido a primeira que li, gravando-se em minha mente.  Ela se encontra em Pasolini (1980), da filósofa gramsciana Maria Antonietta Macchiocchi, que conheceu bem Pasolini, e que faleceu em Roma a 15 de abril de 2007, agravada pela observação de que “Roberto Roversi, um camarada de Pier Paolo, escreverá explicitamente num artigo que tudo foi inventado” (MACCHIOCCHI, Pasolini, p. 21).

Tudo foi inventado? Não. Uma versão anterior, apresentada por Enzo Siciliano, em Vita di Pasolini (1978), que me parecia mais confusa, foi confirmada pelos relatos de Nico Naldini em seus livros sobre seu famoso primo: Pasolini / Pages retrouvées dans les champs du Frioul (1984), Pasolini, una vita (1989), Il treno del buon appetito (1992), Mio cugino Pasolini (2000). Ele testemunhou todos os fatos, os registros policiais, os interrogatórios deprimentes, os processos.

Naldini acompanhava o jovem primo nessas noitadas inesquecíveis do imediato pós-guerra, em excursões noturnas pela região de Casarsa, onde morava. Pasolini lecionava numa escola de Valvasone, e vivia namorando os adolescentes do campo. Eles o haviam iniciado sexualmente e desde então Pasolini mantinha com eles jogos eróticos desejados de parte a parte. Com 27 anos, Pasolini ainda parecia um adolescente, e os adolescentes do campo o procuravam famintos.

Após um baile em Ramuscello, três jovens comentaram em altos brados, durante uma disputa, quem tinha feito o que com Pasolini na noite anterior. Um camponês que passava por eles ouviu a conversa e, horrorizado, denunciou o já visado jovem comunista à polícia local, por “atos obscenos e corrupção de menores”. Para os moralistas, os menores são sempre inocentes. Mesmo quando estupram, assaltam, matam ou se atracam sexualmente. Tão moralistas quanto os católicos, os fascistas e os comunistas, os Gays de Direita querem analisar a obra complexa de um gênio homossexual ignorando tudo sobre ela. O resultado é um escarro de homofobia.

Pasolini, nos anos de 1940, jogando futebol com seus amigos.

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