TRÊS MOMENTOS DE CATERINA BORATTO

Caterina Boratto em 'Campo de' fiori' (1943), de Mario Bonnard.

Caterina Boratto em ‘Campo de’ fiori’ (1943), de Mario Bonnard.

Diva do cinema italiano dos anos de 1930-1940, Caterina Boratto (1915-2010) chegou a ser convidada, em 1938, por Louis B. Meyer, a trabalhar em Hollywood. Teria participado de alguns filmes estrelados por Greta Garbo, Clark Gable, Mirna Loy e Spencer Tracy, mas provavelmente em pontas não creditadas, pois não há registros deles no IMDB. Com o início da Segunda Guerra, como ela não fazia o sucesso que esperava em Hollywood, retornou à Itália, onde tinha papéis de estrela em filmes de “telefones brancos” como Campo de’ fiori (1943), de Mario Bonnard.

O fim do conflito trouxe também o fim da carreira de Caterina Boratto como diva do cinema fascista. Contudo, conservando na idade madura sua beleza aristocrática e glacial, ela foi “redescoberta” por Federico Fellini e ganhou aparições impressionantes em (Fellini 8½, 1963) e Giulietta degli spiriti (Julieta dos espíritos, 1965). Esses filmes proporcionaram à Borato um comeback dentro do cinema italiano dos anos de 1960-1970.

Caterina Boratto em 'Giulietta degli spiriti' (Julieta dos espíritos, 1965), de Federico Fellini.

Caterina Boratto em ‘Giulietta degli spiriti’ (Julieta dos espíritos, 1965), de Federico Fellini.

Seu papel mais marcante nessa segunda fase de sua carreira foi o da velha meretriz Signora Castelli em Salò, o le 120 giornate di Sodoma (Saló, ou 120 dias de Sodoma, 1975), de Pier Paulo Pasolini. Podemos interpretar a escolha simbólica que Pasolini fez de Caterina Borato para esse papel como uma crítica feroz ao velho fascismo, carregada, ao mesmo tempo, de certo carinho pela lembrança do fascínio dos anos de ouro do cinema italiano.

O cinema fascista havia seduzido toda uma geração de jovens cinéfilos (Fellini e Pasolini entre eles), que se encantavam, em sua adolescência, com as produções da Cinecittà, o grande estúdio criado por Mussolini. Pelo mesmo motivo Pasolini deve ter escolhido Massimo Girotti para o papel do industrial milanês seduzido pelo Deus encarnado por Terence Stamp em Teorema (Teorema, 1968), lembrando-se da juventude gloriosa daquele astro em filmes fascistas como La corona di ferro (A coroa de ferro, 1941), de Alessandro Blasetti.

Que a veterana atriz, ainda bela aos 60 anos, tenha se prestado ao jogo de Pasolini, aceitando interpretar a escabrosa Signora Castelli, uma das três apresentadoras  (no sentido próprio de entertainer) dos três círculos (ou shows) de horrores (manias, merda e sangue) de Salò, é algo que conta a seu favor. Claro que ela, como os demais atores engajados, não imaginava o efeito tremendo que a edição conferiria ao filme, cujas rodagens transcorriam de modo até divertido. Caterina Borato continuou ativa no cinema até 1993, morrendo em 2010, aos 95 anos.

Caterina Boratto em 'Salò' (Saló, 1975), de Pier Paulo Pasolini.

Caterina Boratto em ‘Salò’ (Saló, 1975), de Pier Paulo Pasolini.

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