UMA EXISTÊNCIA SUBVERSIVA

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Entrevista concedida a Daysi Bregantini, em outubro de 2014, para o Dossiê Pasolini, da Revista Cult. A entrevista não foi publicada pela revista. O ensaio que escrevi para o Dossiê também não, pois o prazo concedido foi algo impossível. Ele deverá ser publicado em livro, no próximo ano, pela Universidade Federal do Pará.

9. Autoritratto (1965).

Pasolini respondeu a 33 processos antes de ser assassinado em 2 de novembro de 1975. O crime provavelmente foi político, embora ainda permaneça envolto em mistérios.  Por que ele foi tão brutalmente perseguido, inclusive expulso do Partido Comunista Italiano, em 1949? A Itália era realmente um lugar horrível?

Luiz Nazario: Pasolini era um intelectual completamente atípico, um devorador de livros que acumulava uma cultura impressionante, dominando diversos campos do saber (pintura, literatura, teatro, cinema) tanto na teoria quanto na prática, um erudito que traduzia peças antigas do grego e do latim, um pensador que revolucionou o marxismo com sua Semiologia da Realidade. Ao mesmo tempo, Pasolini era um sedutor de rapazes, sexualmente ativo e passivo, liberto de todas as amarras morais que inibem sexualmente os intelectuais, frequentador do bas-fond, amigo de subproletários, marginais e prostitutos, circulando livremente e com a mesma desenvoltura entre os luminares da alta cultura italiana, entre os quais se destacava, e os malandrinhos das borgate de Roma, entre os quais era querido. Quando veio “incógnito” ao Brasil acompanhado de sua amiga Maria Callas, evitou a imprensa e foi “caçar” nas favelas do Rio. E quando filmava no Terceiro Mundo, ia buscar seus parceiros no meio popular, arriscando a vida. Gostava do sexo natural, feito na praia, na relva, nos arrabaldes. De dia, trabalhava exaustivamente em seus livros e filmes, ia almoçar ou jantar com seus amigos, todos eles grandes nomes da cultura italiana. De noite, seguia para a “caça”, para fazer sexo com jovens rapazes do submundo, alguns dos quais acabavam se tornando também seus amigos e atores de seus filmes. Para a sociedade burguesa, ele era a encarnação de Dorian Gray e, para os fascistas, a encarnação de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Foi por isso também que Pasolini foi expulso do Partido Comunista Italiano, formado, como toda a esquerda, por intelectuais burgueses, em sua maioria sexualmente recalcados, desde a infância. Pasolini foi iniciado sexualmente por dois camponeses menores de idade, que o sodomizaram com o seu consentimento, pois há muito os desejava. Veio daí seu gosto pelo sexo selvagem, natural, e sua preferência pelos adolescentes do povo, de modos rudes e membros avantajados. Numa festa em Ramuscello ele se entregou a uma orgia com adolescentes do campo, menores de idade. No dia seguinte, os jovens passaram a contar vantagens, revelando o que fizeram com ele. Um policial que passava de bicicleta ouviu os jovens a se gabarem, comentando a noitada. Pasolini foi então detido e processado. O escândalo levou à perda de sua licença de professor, ele não pode mais lecionar no Estado, foi praticamente expulso de casa pelo pai, um militar fascista, e teve que fugir para Roma, levando a mãe, que ele adorava, passando a morar numa borgata, sobrevivendo de aulas particulares. E de modo ainda mais humilhante para ele, teve cancelada sua carteirinha do Partido Comunista Italiano, onde militava cheio daquelas esperanças revolucionárias que os burgueses todos, seja à direita ou à esquerda, detestavam. Nesse sentido, não apenas a Itália, mas todo o mundo burguês era um lugar horrível para Pasolini.

Pasolini tinha um inquietante pressentimento de genocídio cultural? Ele compartilharia com Giorgia Agamben a mesma desconsolada visão da impossibilidade humana?

Luiz Nazario: Para Pasolini, que amava concreta e fisicamente o povo, e não abstrata e teoricamante como a esquerda burguesa o ama, a percepção de que esse povo se aburguesava com o consumismo, tornando-se tão detestável quanto a própria burguesia, foi um golpe tremendo. Foi esse aburguesamento do povo ocorrido nos anos de 1960 na Itália do “milagre econômico”, pela massificação da TV e da publicidade, que Pasolini chamou de “genocídio cultural” ou de “homologação”. O filósofo italiano Giorgio Agamben foi amigo de Pasolini na juventude: tinha 22 anos de idade quando o cineasta o convidou para encarnar o apóstolo Felipe em Il Vangelo secondo Matteo (O evangelho segundo São Mateus, 1964). Para Agamben, o homem é o único animal interessado na própria imagem, um “animal que vai ao cinema”. É possível que ele tenha herdado de Pasolini seu pessimismo intelectual, mas, como filósofo burguês, seu desespero não é tão físico e concreto – tão apocalíptico – quanto o de Pasolini.

A obra completa de Pasolini (nove volumes que abrigam poesia, romance, ensaio, narrativa, jornalismo, crítica literária, teatro e cinema) permanece atual?

Luiz Nazario: Sem dúvida, como são e sempre serão atuais as obras de Dante, Molière, Cervantes, Goethe, Shakespeare, Dostoievski, Kafka, Canetti, Ayn Rand, Borges, etc. Pasolini é um dos monumentos não apenas da cultura italiana, como da cultura humana. Como qualquer grande autor, nem tudo o que escreveu é grande. Mas sua obra é, como a de todos os grandes, grande em alguns momentos e em seu conjunto. É como toda bela cidade. Quando pensamos em Paris, em Praga, em Roma, em Veneza, em Milão, em Londres, etc. não pensamos em seus arredores horríveis, mas no que há de maravilhoso nessas cidades, nas belezas que elas são efetivamente, apesar de tudo, graças às belezas que possuem e que irradiam suas qualidades para o todo. Pasolini é um dos grandes autores do mundo, e sempre valerá a pena visitar e revisitar suas obras.

Alberto Moravia chamava Pasolini de “poeta civil”, o que isso significa?

Luiz Nazario: O poeta civil é aquele que não compõe apenas poemas sobre diversos temas que podem ou não falar à alma de alguns ou de muitos, mas aquele que se torna a voz da nação em alguns momentos, falando à alma de todo o povo, uma voz poética cuja mensagem transcende a poesia sem deixar de ser poética, emocionando a nação inteira. No Brasil, Carlos Drummond de Andrade, com Rosa do povo, ou Ferreira Gullar, com Poema sujo, são dois exemplos. O poeta civil é o poeta que se engaja pela liberdade no mais alto grau da literatura.

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