Monthly Archives: Novembro 2015

RECORDANDO PASOLINI

Na Itália, os 40 anos da morte de Pasolini foram lembrados pela RAI com uma maratona de programas, reportagens, documentários e teledramas, já incluídos na atualização da seção Pasoliniana Audiovisual deste blog.

No Brasil, o SESC Palladium, em Belo Horizonte, tomou a dianteira das homenagens e realizou, em julho, a mostra Pasolini e o Cinema de Poesia, com quase todos os filmes de Pasolini, convidando-me para ministrar um minicurso de quatro dias, Pasolini: Vida e Obra, dentro do qual pude exibir os curtas-metragens do cineasta, que considero parte essencial de sua obra, e que não haviam sido incluídos na retrospectiva. O curso teve mais de cinquenta inscritos, o que demonstra o interesse que Pasolini continua a despertar.

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Mais tarde, em outubro, a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, organizou, por ocasião do lançamento do livro Poemas: Pier Paolo Pasolini, com organização de Maurício Santana Dias (tradutor) e Alfonso Berardinelli, pela Editora Cosac Naify, o evento Um dia e duas noites com Pier Paolo Pasolini (1922-1975), também chamado Jornada Pier Paolo Pasolini ou ainda Jornada Pier Paolo Pasolini / Michel Lahud.

A dupla Jornada incluiu o ciclo de debates Demasiado Pasolini, com os especialistas Alfonso Berardinelli, Mariarosaria Fabris, João Silvério Trevisan, Eduardo Sterzi, Maurício Santana, Cláudia Tavares, Maria Betânia Amoroso, Roan Costa Cordeiro e José Miguel Wisnik.

No mesmo encontro foi feita uma homenagem a Michel Lahud (1949-1992), “um dos primeiros nomes a falar sobre Pasolini no Brasil”, com a projeção de sua conferência Pasolini: paixão e ideologia (1987).

[Dei-me conta de ter “falado” de Pasolini ainda antes de Lahud: meu Pasolini, Orfeu na sociedade industrial foi publicado pela Brasiliense em 1982, seu A vida clara em 1992; três traduções minhas de livros de Pasolini para a Brasiliense precederam a tradução de Os jovens infelizes por Lahud…]

O mesmo evento programou ainda a exposição Pasolini e Seus Universos, com “instalações” de Lourival Cuquinha, Mônica Piloni e Osvaldo Piva. No encerramento, o Grupo Teatro de Narradores apresentou a peça Demasiado Pasolini e o Grupo Sensus a performance Polvos Poéticos, “sussurrando nos ouvidos do público trechos das obras de Pasolini”.

Por fim, no Terraço da Biblioteca teve lugar um “sarau picante” intitulado Poéticos & Eróticos: um sarau demasiadamente Pasolini, com artistas de diversas linguagens convidando o público a “se expressar”. O DJ Rebel K “com suas pérolas musicais”, completou o “clima festivo da noite”.

PARA SABER MAIS:

NAZARIO, Luiz. Todos os corpos de Pasolini. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007. 378p. Disponível nas lojas: Amazon (melhor preço); Submarino; Americanas; Livraria Cultura; Livraria da Travessa; Livraria da Folha; Siciliano – entre outras (atualizações no site Buscapé).

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40 ANOS SEM PASOLINI

Pasolini em Roma, 1967. Foto de Franco Vitale, Reporters Associati & Archivi Mondadori Portfolio.

Pasolini em Roma, 1967. Foto de Franco Vitale, Reporters Associati & Archivi Mondadori Portfolio.

Há 40 anos Pasolini era assassinado no sinistro ambiente suburbano e de desolada pobreza do Idroscalo de Óstia. Essa praia suja lembra os cenários de seus primeiros filmes, onde subproletários da periferia de Roma morriam vitimados pelas circunstâncias. O trágico fim de Pasolini, como o de um de seus personagens trágicos, transformou instantaneamente sua legenda negra numa legenda dourada, dando razão às suas profecias, realidade às suas “paranoias”.

Vivo, Pasolini era abominado, censurado, desprezado, considerado como um porco, um degenerado, um pervertido. Morto, passou a ser cultuado, celebrado e restaurado, visto como um santo, um gênio, um mito. Odiado pela esquerda e pela direita, hoje Pasolini é recuperado à direita e à esquerda: seu nome ainda dá algum lucro aos conglomerados das mídias, e suas ideias continuam a agredir o senso comum, interessando tanto ao mercado quanto ao projeto socialista – ainda que Pasolini abominasse o capitalismo e não acreditasse mais no socialismo, vivendo um dia após outro, sem esperança.

Como Pasolini veria o mundo se vivesse hoje? Ele se consideraria ainda um homem de esquerda depois de toda a corrupção a que os socialistas se entregaram no poder, revelada na Operação Mãos Limpas, que varreu os políticos tradicionais de esquerda e de direita na Itália, reformatando os velhos partidos? Creio que não, mas continuaria abominando o resultado da Operação Mãos Limpas: a eleição de Silvio Berlusconi, o mais corrupto dos corruptos…

Pasolini jamais seria de direita, mas ele não se definiria mais como um homem de esquerda, distanciando-se da visão deformada do mundo que hoje predomina nas mídias socialistas, agarradas aos seus velhos princípios apodrecidos. Denunciaria cada mentira deslavada publicada nesses tabloides vermelhos, dedicados a enquadrar seus adversários políticos,  e seria novamente linchado e assassinado. Só que, agora, não apenas pelos extremistas de direita, mas também pelos extremistas de esquerda.

Já em 1968, durante as manifestações estudantis, Pasolini sentiu o gosto amargo da perseguição esquerdista ao publicar seu famoso poema “Il PCI aos jovens” (O PCI aos jovens) e no qual ousou colocar-se ao lado dos policiais que espancavam os jovens de esquerda, porque estes seriam filhos de burgueses, os patrões do futuro, enquanto aqueles, filhos de camponeses e proletários, continuariam pobres, e seus filhos seriam os empregados daqueles que protestavam…

Nos anos de 1970 Pasolini percebeu que os jovens fascistas e os jovens socialistas não se distinguiam mais em suas aparências, um sinal de que a extrema-esquerda assemelhava-se à extrema-direita pela mesma recusa do humanismo, sepultado por um mal que engolfava a todos: o consumismo. Os próprios jovens do subproletariado, que eram os seus objetos de desejo, sofriam a mesma mutação, convertidos em delinquentes, capazes de todos os crimes.

Poucos levavam a sério o que Pasolini escrevia. Mas suas profecias realizaram-se todas, incluindo a de sua própria morte violenta, prevista diversas vezes em seus poemas, romances e filmes. Seu assassinato abalou a Itália, e fez seus críticos repensarem os discursos odiosos que publicavam sobre ele. Durante os funerais de Pasolini, seu grande amigo Alberto Moravia, impactado por essa morte, proferiu de improviso uma oração fúnebre emocionante:

Quero repetir mais uma vez, talvez para consolar-me um pouco da sua morte atroz. Quero dizer, pois, o que perdemos. Nós, seus amigos, vós outros, em suma, todo o povo italiano, perdemos um homem profundamente bom, meigo, gentil, com a alma cheia de milhões de sentimentos, um homem que odiava a violência. Sim, há muitos bons, mas um bom como Pasolini será difícil encontrar, será difícil que volte à Terra tão cedo… Depois perdemos o que alguns chama de o Outro, e que eu chamo o Mesmo, perdemos o Outro e o Mesmo… Um homem corajoso, muito mais corajoso que a maioria de seus contemporâneos… Era diverso, sim, sua diversidade consistia na coragem de dizer a verdade, ou aquilo que ele acreditava ser a verdade, e quando se acredita na verdade há alguma coisa que o faz dizê-la, sobretudo quando se é uma pessoa como Pasolini, inteligentíssimo e apegado ao real… Perdemos uma testemunha, uma testemunha diversa… Diverso também porque ele procurava provocar reações ativas e benéficas no corpo inerte da sociedade italiana… Isso se devia à sua ausência absoluta de cálculo, de compromisso, de prudência. Era diverso porque era desinteressado. Depois perdemos também o Mesmo. Que entendo pelo Mesmo? Ele era um grande escritor e cineasta, um alimento precioso para qualquer sociedade. Qualquer país seria feliz de possuir Pasolini entre os seus filhos. Perdemos, sobretudo, um poeta e os poetas não são tantos no mundo, só nascem uns quatro num século… Os poetas deviam ser sagrados…

Quase recaindo na mística do Cristo crucificado, mas logo evocando, de modo sub-reptício, o trágico destino de Orfeu, que ao introduzir a homossexualidade na Grécia foi despedaçado pelas bacantes – dois mitos caros ao diretor de O evangelho segundo São Mateus e Medéia –, o racional Moravia esboçou aqui, no calor da emoção, a melhor definição de Pasolini.

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