Tag Archives: Silvio Berlusconi

40 ANOS SEM PASOLINI

Pasolini em Roma, 1967. Foto de Franco Vitale, Reporters Associati & Archivi Mondadori Portfolio.

Pasolini em Roma, 1967. Foto de Franco Vitale, Reporters Associati & Archivi Mondadori Portfolio.

Há 40 anos Pasolini era assassinado no sinistro ambiente suburbano e de desolada pobreza do Idroscalo de Óstia. Essa praia suja lembra os cenários de seus primeiros filmes, onde subproletários da periferia de Roma morriam vitimados pelas circunstâncias. O trágico fim de Pasolini, como o de um de seus personagens trágicos, transformou instantaneamente sua legenda negra numa legenda dourada, dando razão às suas profecias, realidade às suas “paranoias”.

Vivo, Pasolini era abominado, censurado, desprezado, considerado como um porco, um degenerado, um pervertido. Morto, passou a ser cultuado, celebrado e restaurado, visto como um santo, um gênio, um mito. Odiado pela esquerda e pela direita, hoje Pasolini é recuperado à direita e à esquerda: seu nome ainda dá algum lucro aos conglomerados das mídias, e suas ideias continuam a agredir o senso comum, interessando tanto ao mercado quanto ao projeto socialista – ainda que Pasolini abominasse o capitalismo e não acreditasse mais no socialismo, vivendo um dia após outro, sem esperança.

Como Pasolini veria o mundo se vivesse hoje? Ele se consideraria ainda um homem de esquerda depois de toda a corrupção a que os socialistas se entregaram no poder, revelada na Operação Mãos Limpas, que varreu os políticos tradicionais de esquerda e de direita na Itália, reformatando os velhos partidos? Creio que não, mas continuaria abominando o resultado da Operação Mãos Limpas: a eleição de Silvio Berlusconi, o mais corrupto dos corruptos…

Pasolini jamais seria de direita, mas ele não se definiria mais como um homem de esquerda, distanciando-se da visão deformada do mundo que hoje predomina nas mídias socialistas, agarradas aos seus velhos princípios apodrecidos. Denunciaria cada mentira deslavada publicada nesses tabloides vermelhos, dedicados a enquadrar seus adversários políticos,  e seria novamente linchado e assassinado. Só que, agora, não apenas pelos extremistas de direita, mas também pelos extremistas de esquerda.

Já em 1968, durante as manifestações estudantis, Pasolini sentiu o gosto amargo da perseguição esquerdista ao publicar seu famoso poema “Il PCI aos jovens” (O PCI aos jovens) e no qual ousou colocar-se ao lado dos policiais que espancavam os jovens de esquerda, porque estes seriam filhos de burgueses, os patrões do futuro, enquanto aqueles, filhos de camponeses e proletários, continuariam pobres, e seus filhos seriam os empregados daqueles que protestavam…

Nos anos de 1970 Pasolini percebeu que os jovens fascistas e os jovens socialistas não se distinguiam mais em suas aparências, um sinal de que a extrema-esquerda assemelhava-se à extrema-direita pela mesma recusa do humanismo, sepultado por um mal que engolfava a todos: o consumismo. Os próprios jovens do subproletariado, que eram os seus objetos de desejo, sofriam a mesma mutação, convertidos em delinquentes, capazes de todos os crimes.

Poucos levavam a sério o que Pasolini escrevia. Mas suas profecias realizaram-se todas, incluindo a de sua própria morte violenta, prevista diversas vezes em seus poemas, romances e filmes. Seu assassinato abalou a Itália, e fez seus críticos repensarem os discursos odiosos que publicavam sobre ele. Durante os funerais de Pasolini, seu grande amigo Alberto Moravia, impactado por essa morte, proferiu de improviso uma oração fúnebre emocionante:

Quero repetir mais uma vez, talvez para consolar-me um pouco da sua morte atroz. Quero dizer, pois, o que perdemos. Nós, seus amigos, vós outros, em suma, todo o povo italiano, perdemos um homem profundamente bom, meigo, gentil, com a alma cheia de milhões de sentimentos, um homem que odiava a violência. Sim, há muitos bons, mas um bom como Pasolini será difícil encontrar, será difícil que volte à Terra tão cedo… Depois perdemos o que alguns chama de o Outro, e que eu chamo o Mesmo, perdemos o Outro e o Mesmo… Um homem corajoso, muito mais corajoso que a maioria de seus contemporâneos… Era diverso, sim, sua diversidade consistia na coragem de dizer a verdade, ou aquilo que ele acreditava ser a verdade, e quando se acredita na verdade há alguma coisa que o faz dizê-la, sobretudo quando se é uma pessoa como Pasolini, inteligentíssimo e apegado ao real… Perdemos uma testemunha, uma testemunha diversa… Diverso também porque ele procurava provocar reações ativas e benéficas no corpo inerte da sociedade italiana… Isso se devia à sua ausência absoluta de cálculo, de compromisso, de prudência. Era diverso porque era desinteressado. Depois perdemos também o Mesmo. Que entendo pelo Mesmo? Ele era um grande escritor e cineasta, um alimento precioso para qualquer sociedade. Qualquer país seria feliz de possuir Pasolini entre os seus filhos. Perdemos, sobretudo, um poeta e os poetas não são tantos no mundo, só nascem uns quatro num século… Os poetas deviam ser sagrados…

Quase recaindo na mística do Cristo crucificado, mas logo evocando, de modo sub-reptício, o trágico destino de Orfeu, que ao introduzir a homossexualidade na Grécia foi despedaçado pelas bacantes – dois mitos caros ao diretor de O evangelho segundo São Mateus e Medéia –, o racional Moravia esboçou aqui, no calor da emoção, a melhor definição de Pasolini.

Continuar a ler

Deixe um comentário

Filed under ENSAIO