Category Archives: NOTA DE RODAPÉ

PASOLINI, NO DIA DOS MORTOS

Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini

Impossível esquecer o dia da morte de Pier Paolo Pasolini: 2 de novembro de 1975. Ele foi assassinado no Dia dos Mortos. Uma homenagem a Pasolini poderia resumir-se à citação de uma única frase do autor, que faz mais sentido que mil artigos das mídias de consumo, de direita e de esquerda: “Não acredito que tenhamos mais qualquer forma de sociedade na qual os homens sejam livres. Não se deve esperar por isso. Não se deve ter esperança de nada. Esperança é algo inventado pelos políticos para manter o eleitorado feliz”.

O documentário holandês Wie de Waarheid Zegt Moet Dood / Whoever Says the Truth Shall Die (1981), de Philo Bregstein, registrou a vida e a morte desse escritor e cineasta livre como poucos homens o foram, com algumas imagens chocantes de seu corpo mutilado, como se esse devesse ser o preço a pagar pela liberdade no conglomerado, onde a industrialização total gera novas classes médias consumistas, violentas, anarquistas, totalmente desprovidas de cultura, como no país de Lula-Dilma, campeão mundial de assassinatos de homossexuais e tão vibrante de vandalismos. O filme nunca foi lançado no Brasil.

Os escritos de Pasolini, divididos em poemas, ensaios, crônicas, romances e peças, assim como os filmes de Pasolini, que também podem ser divididos em filmes-poemas, como La Rabbia; filmes-ensaios como La forma della città; filmes-crônicas como Appunti per un’Orestiade Africana; filmes-romances, como Teorema; e filmes-peças como Pocilga, nunca perderam o frescor de sua novidade, permanecendo atuais, gerando a cada ano novas teses e livros, novas biografias e documentários.

Apenas neste ano, Pasolini foi revisto numa dezena de obras, entre as quais: L’Apocalisse secondo Pier Paolo Pasolini (2013), de  P. Pedote; Pasolini profeta (2013), de Felicia Buonomo; Dimenticare Pasolini. Intellettuali e impegno nell’Italia contemporanea (2013), de Pierpaolo Antonello; L’ultima partita di Pasolini. Trapani, 4 maggio 1975 (2013), de Salvatore Mugno; Fratello selvaggio: Pier Paolo Pasolini tra gioventù e nuova gioventù (2013), de G. M. Annovi; La lingua scritta della realtà. Studi sull’estetica di Pier Paolo Pasolini (2013), de Luca D’Ascia… Impossível ler tudo.

Enrico Menduni apresentou no último Festival de Veneza um novo documentário sobre Pasolini: Profezia: L’Africa di Pasolini (Profecia: a África de Pasolini, Itália / Marrocos, 2013), de Gianni Borgna. O filme aborda a busca de Pasolini de uma África que prolongava seu sonho perdido de uma vida camponesa revolucionária em sua Friuli natal e nas borgate romanas. Seu amor por uma cultura ainda próxima do mito, registrado em La Rabbia (1963), Edipo Re (1967), Appunti per un’Orestiade Africana (1969), surge como o fundo notálgico de seu desencanto com o mundo civilizado, documentado também em reportagens da época encontradas nos arquivos do Instituto Luce e da Rai, incluindo um diálogo entre Pasolini e Jean-Paul Sartre, em Paris, sobre Il Vangelo secondo Matteo (1964).

Franco Citti e Enrico Berlinguer nos funerais de Pier Paolo Pasolini.

Franco Citti e Enrico Berlinguer nos funerais de Pier Paolo Pasolini.

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MARIA CALLAS EM ‘MEDEA’

Pasolini e Callas  no set de Medea (Medéia, 1969). Foto de Mimmo Cattarinich.

Pasolini e Callas no set de Medea (Medéia, 1969). Foto de Mimmo Cattarinich.

Encontramos no YouTube raridades que mereciam ser resgatadas e comercializadas em sua melhor forma, mas que permanecem guardadas nos arquivos, públicos ou particulares, à espera de um restauro, de uma remasterização, e que algum fã posta para o conhecimento de outros fãs, mas num formato inadequado para uma divulgação mais ampla. É o caso desta entrevista com Maria Callas realizada durante as filmagens de Medea (Medéia, 1969), de Pier Paolo Pasolini. Apesar da qualidade ruim das imagens, ainda prejudicadas pela inserção do timecode do vídeo, o clipe merece ser visto por seu quase ineditismo:

Podemos aí testemunhar um pouco dos métodos de direção de Pasolini e seu amor ao perfeccionismo que o aproximava da Callas, que se submetia às repetições infinitas das cenas com extremo profissionalismo: “Somos como mercúrio”, ela afirma ao caracterizar a si mesma e ao diretor de seu único filme. Medea foi rodado em inglês e posteriormente dublado em francês e em italiano. A versão em francês parece ter desaparecido. A versão em inglês foi incluída na edição em DVD de Medea da editora italiana Raro Video e na edição dual em DVD e Blu-Ray da editora inglesa BFI. Outro raro clipe é esta entrevista com Pasolini e Callas no set de Medea, do programa Monitor da BBC:

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A IDEOLOGIA DE PASOLINI

Pier Paolo Pasolini, Alberto Moravia e Maria Callas na África, fotografados por Dacia Maraini. Fonte: http://www.vogue.it/en/people-are-talking-about/art-photo-design/2010/11/l-altrove-di-maraini-

Pier Paolo Pasolini, Alberto Moravia e Maria Callas na África, fotografados por Dacia Maraini. Fonte: http://www.vogue.it/en/people-are-talking-about/art-photo-design/2010/11/l-altrove-di-maraini-

Encontrei na Edição 2011/1 da Revista In-Traduções do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da UFSC, o belo ensaio “A ideologia de Pasolini”, de Alberto Moravia, primorosamente traduzido por Stella Rivello. Moravia faz uma descrição perfeita das diversas fases da singular ideologia de seu grande amigo. Ao ler o ensaio, imagino os dois escritores a discutir suas posições políticas, cada qual  anotando, mais tarde, suas reflexões críticas sobre esses diálogos apaixonados. Coube a Moravia, que sobreviveu ao amigo, sintetizar nessas dez páginas, sem uma só linha supérflua, toda a evolução do pensamento de Pasolini, desde seu engajamento no projeto utópico de um comunismo agrário, até as desilusões em série trazidas pela homologação. Pode-se baixar o texto completo em PDF nesta página.

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PASOLINI NA AMÉRICA

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Pier Paolo Pasolini por Richard Avedon. © The Richard Avedon Foundation.

Entre 13 e 23 de setembro de 1966, Pasolini fez sua única viagem aos EUA, junto ao seu inseparável Ninetto Davoli, após acompanhar a exibição de Accattone e Uccellacci e Uccellini no Festival de Montreal, no Canadá. Nessa cidade tomou o trem para Nova York, e ao sair da estação subterrânea a metrópole americana surgiu-lhe como “Jerusalém aos olhos do Crucificado”.

Encontrou-se com Allen Ginsberg, que admirava imensamente: “Sobre Nova York existe apenas as suas poesias” (em 1967 eles se reencontrariam em Milão), foi entrevistado por Oriana Fallaci para L’Europeo, fotografado por Duilio Pallottelli na Broadway e, no último dia de sua estada, por Richard Avedon em seu estúdio.

Foram dez dias vividos intensamente em Manhattan. Passeou no Harlem, em Greenwich Village, no Brooklyn. No porto, onde foi fotografado por Duane Michels, tentou aproximar-se da América “suja, infeliz, violenta”. A Meca do capitalismo mundial apaixonou o marxista independente, que não devia satisfações ao Partido comunista nem partilhava seus dogmas.

Todas as noites Pasolini voltava de madrugada para seu hotel, esgotado: “Queria ter dezoito anos para viver toda uma vida aqui.” Mas ele ainda parecia bem jovem aos 44 anos. Desde criança Pasolini se encantava com a América. Não sabia dizer porque, uma vez que não tinha especial apreço pela literatura americana e muito menos pelo establishment americano. E então? “O cinema, talvez. Toda a minha juventude passei fascinado pelos filmes americanos, ou seja, pela América violenta, brutal. Mas não foi esta América que encontrei: é uma América jovem, desesperada, idealista.”

Os jovens parecem-lhe incrivelmente elegantes, vestindo o que lhes dá na telha sem se preocuparem com o que os outros possam pensar deles. Eles mais se fantasiam que se se vestem. A indiferença para com os outros é a seu ver uma forma de respeito à privacidade, ao contrário do “curiosar” invasivo dos europeus, que estão sempre prontos a fiscalizar e condenar o comportamento alheio.

Pasolini sentiu-se tão à vontade em Nova York que teve a ideia de aí ambientar o filme que planejava rodar sobre São Paulo: não mudaria o roteiro, apenas o cenário. A ação que se passaria na antiga Roma seria transferida para Nova York. Sentia que o centro do Império vivia um momento revolucionário. O comunismo fracassou na Rússia, na China. O socialista europeu era um homem vazio. Já a New Left americana, com sua mística da democracia levada aos extremos, mostrava-se viva, vibrante.

Ao presenciar uma manifestação a favor da guerra do Vietnã com cartazes como “Bombardeiem Hanói” e “Matem todos aqueles vermelhos” durante a qual irromperam, na contracorrente, três jovens pacifistas tocando violão e cantando uma canção de protesto sem que houvesse qualquer insulto ou gesto de hostilidade da parte dos manifestantes, Pasolini teve uma verdadeira epifania e declarou a Oriana Fallaci:

Esta é a coisa mais linda que vi na minha vida. Essa é uma coisa que não esquecerei enquanto eu estiver vivo. Devo voltar, devo estar aqui, mesmo que não tenha mais dezoito anos. Como me desagrada partir, me sinto derrubado. Me sinto como um menino diante de um bolo pronto para ser devorado, um bolo de várias camadas, e o menino não sabe qual camada lhe agradará mais, sabe apenas que deseja, que deve comer todas elas. Uma a uma. E no momento mesmo em que ele está para abocanhar o bolo, levam-no embora.

Anos atrás, Martin Scorsese foi o padrinho e Meryl Streep a madrinha da estreia de Mamma Roma, no Film Forum de Nova York, lançado depois em cem cidades dos EUA. Até então, o filme só havia sido exibido na América em museus. Com provável exceção de Scorcese, a Streep foi uma das pessoas que mais viu o filme de Pasolini: ela se inspirou na personagem de Anna Magnani para atuar como Francesca Johnson em The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison, 1995), de Clint Eastwood.

O amor de Pasolini à América teve correspondência em alguns críticos e cineastas americanos. Richard Schickel escreveu na Life que Il Vangelo secondo Matteo era “o melhor filme de todos os tempos”. Dennis Lim, do The New York Times, considerou a influência de Pasolini como algo de único no panorama contemporâneo:

Pasolini preparou o caminho para muitos realizadores, como Rainer Werner Fassbinder, Derek Jarman, Gus Van Sant e Abel Ferrara. O poder de suas ideias e o mistério do seu assassinato […] conquistaram a imaginação de inúmeros escritores e artistas. Sua morte também se tornou tema de obras como o docudrama Pasolini, un delitto italiano (1995), de Marco Tullio Giordana, ou a instalação Alfa Romeo GT Veloce 1975-2007, de Elisabetta Benassi, que evoca a cena do crime com uma reprodução do carro de Pasolini.

O espectro de Pasolini ronda Nova York: a galeria Location One, no SoHo, expôs uma mostra de quadros de Pasolini. O Museum of Modern Art (MoMA) e o MoMA PS1 (no Queens) apresentaram uma retrospectiva da obra de Pasolini com filmes, recitais de poesia e música, discussões e performances, sendo que cada filme da mostra foi precedido por um comentário gravado do próprio cineasta. Finalmente, a UnionDocs exibiu, no Brooklyn, documentários de produção recente sobre Pasolini.

Imagens da visita de Pasolini a Nova York em 1966. Na primeira da série de imagens de rua tomadas por Duilio Pallottelli, Pasolini passa por um cinema que exibe programa duplo com Elizabeth Taylor: Cat on a Hot Tin Roof (Gata em teto de zinco quente, 1958), de Richard Brooks, e Butterfield 8 (Disque Butterfiled 8, 1960), de Daniel Mann. Na última imagem Pasolini é retratado nas docas de Nova York por Duane Michels. 

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Referências bibliográficas

BERARDI, Francesca. Pierpaolo Pasolini a New York, un amore possibile. Il Sole, 21 dicembre 2012.

FALLACI, Oriana. Un marxista a New York, L’Europeo, 13 ottobre 1966.

LIM, Dennis. Pasolini’s Legacy: A Sprawl of Brutality. The New York Times, 26 dez. 2012. Disponível em: http://www.nytimes.com/2012/12/27/movies/pasolinis-legacy-a-sprawl-of-brutality.html.

PASOLINI, Pier Paolo. 7 – Supplemento del Corriere della Sera, n. 14, 7 aprile 1990.

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TRÊS MOMENTOS DE CATERINA BORATTO

Caterina Boratto em 'Campo de' fiori' (1943), de Mario Bonnard.

Caterina Boratto em ‘Campo de’ fiori’ (1943), de Mario Bonnard.

Diva do cinema italiano dos anos de 1930-1940, Caterina Boratto (1915-2010) chegou a ser convidada, em 1938, por Louis B. Meyer, a trabalhar em Hollywood. Teria participado de alguns filmes estrelados por Greta Garbo, Clark Gable, Mirna Loy e Spencer Tracy, mas provavelmente em pontas não creditadas, pois não há registros deles no IMDB. Com o início da Segunda Guerra, como ela não fazia o sucesso que esperava em Hollywood, retornou à Itália, onde tinha papéis de estrela em filmes de “telefones brancos” como Campo de’ fiori (1943), de Mario Bonnard.

O fim do conflito trouxe também o fim da carreira de Caterina Boratto como diva do cinema fascista. Contudo, conservando na idade madura sua beleza aristocrática e glacial, ela foi “redescoberta” por Federico Fellini e ganhou aparições impressionantes em (Fellini 8½, 1963) e Giulietta degli spiriti (Julieta dos espíritos, 1965). Esses filmes proporcionaram à Borato um comeback dentro do cinema italiano dos anos de 1960-1970.

Caterina Boratto em 'Giulietta degli spiriti' (Julieta dos espíritos, 1965), de Federico Fellini.

Caterina Boratto em ‘Giulietta degli spiriti’ (Julieta dos espíritos, 1965), de Federico Fellini.

Seu papel mais marcante nessa segunda fase de sua carreira foi o da velha meretriz Signora Castelli em Salò, o le 120 giornate di Sodoma (Saló, ou 120 dias de Sodoma, 1975), de Pier Paulo Pasolini. Podemos interpretar a escolha simbólica que Pasolini fez de Caterina Borato para esse papel como uma crítica feroz ao velho fascismo, carregada, ao mesmo tempo, de certo carinho pela lembrança do fascínio dos anos de ouro do cinema italiano.

O cinema fascista havia seduzido toda uma geração de jovens cinéfilos (Fellini e Pasolini entre eles), que se encantavam, em sua adolescência, com as produções da Cinecittà, o grande estúdio criado por Mussolini. Pelo mesmo motivo Pasolini deve ter escolhido Massimo Girotti para o papel do industrial milanês seduzido pelo Deus encarnado por Terence Stamp em Teorema (Teorema, 1968), lembrando-se da juventude gloriosa daquele astro em filmes fascistas como La corona di ferro (A coroa de ferro, 1941), de Alessandro Blasetti.

Que a veterana atriz, ainda bela aos 60 anos, tenha se prestado ao jogo de Pasolini, aceitando interpretar a escabrosa Signora Castelli, uma das três apresentadoras  (no sentido próprio de entertainer) dos três círculos (ou shows) de horrores (manias, merda e sangue) de Salò, é algo que conta a seu favor. Claro que ela, como os demais atores engajados, não imaginava o efeito tremendo que a edição conferiria ao filme, cujas rodagens transcorriam de modo até divertido. Caterina Borato continuou ativa no cinema até 1993, morrendo em 2010, aos 95 anos.

Caterina Boratto em 'Salò' (Saló, 1975), de Pier Paulo Pasolini.

Caterina Boratto em ‘Salò’ (Saló, 1975), de Pier Paulo Pasolini.

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TRÊS CANÇÕES PARA PASOLINI

I

Fabrizio De André e Massimo Bubola compuseram a canção “Una storia sbagliata” (Uma história errada, 1980), alguns anos depois do assassinato de Pasolini, ocorrido em 1975, tentando absorver seu impacto e refletir sobre o indizível: “A nós, que escrevíamos canções, assim como, creio, a todos aqueles que se sentiam de alguma forma ligados ao mundo da literatura e do espetáculo, a morte de Pasolini nos deixara quase como órfãos. Vivemos seu desaparecimento como um grave luto, quase come se tratasse de um parente próximo.” De André e Bubola interpretaram a bela canção num programa de homenagem a Pier Paolo Pasolini, realizado pela RAI, em 1981. Aqui podemos ouvir a canção sobre curiosas imagens de uma enchente catastrófica.

È una storia da dimenticare

è una storia da non raccontare

è una storia un po’ complicata

è una storia sbagliata.

Cominciò con la luna sul posto

e fini’ con un fiume d’inchiostro

è una storia un poco scontata

è una storia sbagliata.

Storia diversa per gente normale

storia comune per gente speciale

cos’altro vi serve da queste vite

ora che il cielo al centro le ha colpite

ora che il cielo ai bordi le ha scolpite.

È una storia di periferia

è una storia da una botta e via

è una storia sconclusionata

una storia sbagliata.

Una spiaggia ai piedi del letto

stazione Termini ai piedi del cuore

una notte un po’ concitata

una notte sbagliata.

Notte diversa per gente normale

notte comune per gente speciale

cos’altro ti serve da queste vite

ora che il cielo al centro le ha colpite

ora che il cielo ai bordi le ha scolpite.

È una storia vestita di nero

è una storia da basso impero

è una storia mica male insabbiata

è una storia sbagliata.

È una storia da carabinieri

è una storia per parrucchieri

è una storia un po’ sputtanata

o è una storia sbagliata.

Storia diversa per gente normale

storia comune per gente speciale

cos’altro vi serve da queste vite

ora che il cielo al centro le ha colpite

ora che il cielo ai bordi le ha scolpite.

Per il segno che c’è rimasto

non ripeterci quanto ti spiace

non ci chiedere piu’ come è andata

tanto lo sai che è una storia sbagliata

tanto lo sai che è una storia sbagliata.

II

Diamanda Galás musicou e interpetrou um dos poemas mais conhecidos de Pasolini: “Supplica a mia madre” (Súplica à minha mãe), gravada no álbum Malediction and Prayer (1998). Assisti à performance dessa cantora grega, tão sinistra e extraordinária, quando ela se apresentou, há uns quinze anos, em Belo Horizonte. Há um registro da interpretação dramática que deu ao poema no Teatro Albeniz, de Madrid, a 15 de outubro de 2008, mas a melhor gravação que encontrei foi a deste clipe, que ilustra, com imagens aleatórias da cantora, uma gravação realizada durante seu tour internacional entre novembro de 1996 e junho de 1997, antes ainda da gravação da canção no álbum:

SUPPLICA A MIA MADRE

Pier Paolo Pasolini

È difficile dire con parole di figlio

ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.

Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,

ciò che è stato sempre, prima d’ogni altro amore.

Per questo devo dirti ciò ch’è orrendo consocere :

è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia

Sel insostitubile. Per questo è dannata

alla solitudine la vita che mi hai data.

E non voglio esser solo. Ho un’infinita fame

d’amore, dell’amore di corpi senza anima.

Perché l’anima è in te, sei tu, ma tu

sei mia madre e il tuo amore è la mia shiavitù

ho passato l’infanzia schiavo di questo senso

alto, irrimediabile, di un impegno immenso.

Era l’unico modo per sentire la vita

l’unica tinta, l’unica forma : ora è finita.

Sopravviviamo : ed dè la confusione

di una vita rinata fuori dalla ragione.

Ti supplico, ah, ti supplico : non voler morire.

Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile…

 

SÚPLICA À MINHA MÃE

Pier Paolo Pasolini

Tradução: Luiz Nazario

É difícil dizer isso, com palavras de filho,

a quem no coração bem pouco assemelho.

És no mundo a única a saber, de meu coração,

quem sempre reinou, antes de qualquer paixão.

Por isso devo dizer-te o que de horrível sucede:

é de tua graça que a minha angústia procede.

És insubstituível. Por isso à solidão foi condenada

a vida que para viver neste mundo me foi dada.

Mas não quero ser sozinho. Tenho um apetite infinito

de amor, de amor por corpos sem espírito.

Porque a alma está em ti, és tu somente,

mas minha mãe és e, teu amor, uma corrente.

Passei a infância escravo desse alto senso,

irremediável, de um compromisso imenso.

Era a única maneira de sentir a vida,

a única tinta, a única forma: agora finda.

Sobrevivemos: e sobrevém a confusão

de uma vida renascida fora da razão.

Suplico-te, ah, suplico-te: morrer não queiras.

Aqui estou, só, contigo, numa futura primavera.

III

A terceira canção, num ritmo mais pop e batido, apresenta uma visão  quase religiosa de Pasolini. Composta e interpretada por Linda Valori, “Pasolini scrive” (Pasolini escreve), do álbum “Tutti quelli” (Todos aqueles, 2010), não deixa de ter seu encanto, ao abordar, de modo singelo, um tema tão difícil. O maior valor da cançoneta de Valori é o de exaltar a figura de um intelectual – gesto muito raro na cultura de massa:

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‘SALÒ’ POR FABIAN

Casamento de um fascista em 'Saló' (1975).  Imagem de © Fabian Cevallos/Sygma/Corbis.

Casamento de um fascista em ‘Saló’ (1975). Imagem de © Fabian Cevallos/Sygma/Corbis.

SALÒ: MISTERO, CRUDELTÀ E FOLLIA. Pasolini: Una testimonianza fotografica di Fabian. Roma: L’Erma di Bretschneider, 2005, 31p. ISBN: 88-8265-352-8.

Fabian Cevallos iniciou sua carreira como ator, atuando em Sierra Maestra, de Ansano Giannarelli, no papel de um fotógrafo de guerra. O personagem o marcou tanto que decidiu abraçar a carreira de fotógrafo. Por um golpe de sorte, foi convidado por Luchino Visconti para tirar três ou quatro fotografias do set de Ludwig. Mais tarde, trabalhando com o assessor de imprensa Simon Mizrahi, este tentou convencer Pasolini a deixar Fabian fotografar o set de Salò. Mas Pasolini não queria fotógrafos perturbando as filmagens de um filme “tão complicado”.

Certa tarde, rondando pela Cinecittà, Fabian encontrou Federico Fellini, que o apresentou a Pasolini, que já terminava de rodar Salò. Pasolini simpatizou com Fabian e deixou que ele fotografasse os últimos dias das filmagens. Foram nove dias em que o fotógrafo registrou as imagens do inferno nas últimas cenas rodadas do filme: as cruéis, insuportáveis, torturas realizadas no pátio da villa dos fascistas, dentro do Ciclo do Sangue.

No primeiro dia, Fabian não conseguiu fotografar nada, estarrecido com a encenação, que lhe recordava as torturas das ditaduras da América do Sul, de onde ele vinha. Depois, silenciosamente, com a máquina fotográfica na mão, para não perturbar as filmagens, que se desenrolavam como uma cerimônia, ele registrou inclusive a cena terrível onde uma mulher recebe choques numa espécie de cadeira elétrica, sendo em seguida sodomizada pelos rapazes fascistas, cena que desapareceu, como outras do filme, devido ao roubo de alguns rolos da película do laboratório onde estavam sendo reveladas.

Pasolini não pode conversar com Fabian durante as filmagens, mas prometeu encontrar-se com ele depois que o trabalho tivesse terminado, para ver as fotos e escolher algumas para a divulgação. Mas Pasolini foi assassinado antes disso. Fabian o soube através dos jornais. E estes, ao saberem de suas fotos, quiseram imediatamente comprá-las. Fabian recusou. Sentia que seria uma traição ao filme, um desrespeito a Pasolini.

Por trinta anos Fabian manteve suas fotos do set de Salò guardadas no seu arquivo particular. Lembrou-se novamente delas no caso das fotografias das torturas na guerra do Iraque e também durante o massacre dos escolares de Breslan na guerra da Chechênia. Nas homenagens feitas a Pasolini nos trinta anos de sua morte, Fabian sentiu ser aquele o momento certo de divulgar aquelas fotos, inéditas, de um tempo já quase esquecido.

No laboratório em que as revelava, um espanhol, ao ver a imagem do casamento de Salò, perguntou-lhe então: – É um casamento homossexual? Fabian explicou ao rapaz, ignorante de tudo, que era um filme de Pasolini. O espanhol exaltou-se: – Mas isso é simbólico, eu compro, eu compro, poderia ser a melhor imagem para a campanha [a favor do casamento gay] que estamos fazendo na Espanha. Mais uma vez Fabian teve de recusar, preservando a memória de Pasolini do horrendo consumismo contemporâneo.

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